quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Você ainda não está lá, Bárbara

Ela não cansa de me dizer: eu ainda não estou lá.
Mas a verdade é que já não estou mais aqui.


Era segundo semestre de 2005 quando eu e minha, na época, nova namorada, descobrimos que ambas sonhavam em morar fora do país. Imediatamente começamos a falar sobre lugares em que gostaríamos de viver e coisas que nos interessavam... E, no meio de uma paixão enlouquecida pelo cinema de Wong Kar-Wai, começamos a namorar a idéia de ir para Hong Kong, estudar cinema lá, onde o diretor dá aulas.

Ficamos encantadas com a idéia de mudar totalmente de vida: estudar em um país tão diferente do nosso, com pessoas com a cabeça certamente tão diferente da nossa. Sonhamos muito, lemos muito a respeito da cidade, dos costumes, da universidade e até da vida gay e da comunidade brasileira por lá. Mas então a realidade bateu na nossa cara: não tínhamos o dinheiro pra ir, nem pra nos manter lá, muito menos pra pagar uma universidade.

Longe de nos desanimar, resolvemos ver outras possibilidades. Acho que o que faltava a nós duas era a companhia de outra pessoa que embarcasse na mesma onda. Fomos a uma feira de empregos no exterior e lá encontramos um balcão de ofertas de emprego no Canadá. Eram empregos que, na verdade, você meio que pagava pra ter... era como um intercâmbio, que você pagava pra fazer, trabalhava uns meses numa estação de esqui como garçonete ou arrumadeira, e depois voltava pra casa mais ou menos com o mesmo dinheiro que empenhou.

Certamente não era o que queríamos. E isso ficou bem óbvio para o homem que estava nos explicando o processo. Então ele disse: por que vocês não emigram para o Canadá? Há um processo legal, com o visto nas mãos vocês podem morar, trabalhar, estudar e ter praticamente os mesmo direitos de um canadense.

Saímos de lá muito espantadas com essa informação e fomos logo na internet, tentar entender o processo. Pra nós não foi muito simples, pois não tínhamos a menor idéia de como aquilo funcionava. E passamos um bom ano pesquisando, pensando sobre o assunto, conversando com outras pessoas que estavam fazendo o processo. Em maio de 2006 finalmente entramos com o nosso processo de imigrantes trabalhadoras. Na verdade ela entrou e eu fui na baila, dependente dela (o canada aceita casais do mesmo sexo).


Vancouver, onde chegaremos em breve

Foram dois anos de processo, com muita espera, angústia, papelada pra juntar, testes de inglês, testes médicos, levantamento criminal... Mas em maio de 2008, finalmente, saiu o nosso visto.

Uma coisa interessante aconteceu durante esse tempo. Quando aplicamos, dois anos antes, eu era uma produtora de tevê etc. um tanto frustrada por não ter encontrado um nicho bom de trabalho, por não ter entrado, efetivamente, no mercado, e a Mari estava começando a trabalhar como assistente de edição. Ambas ganhávamos uma miséria tão miséria que chega a ser constrangedor lembrar. Dois anos depois, quando saiu o visto, ela estava bombando na Conspiração Filmes e eu havia mudado de profissão, virado editora também, trabalhando e ganhando bem pra quem acabou de se lançar em um novo mercado. Estávamos bem felizes profissionalmente e financeiramente.

Pensamos bem, respiramos fundo e resolvemos adiar nossos planos canadenses até finalizarmos nossos trabalhos no Brasil. O adiamento, inicialmente, seria de alguns meses, depois passou para um semestre e, finalmente, pra quase um ano. E, durante todo esse tempo, trabalhamos como se não tivéssemos vida. E eu procurei fingir que o Canadá não existia. Que eu estaria para sempre no Rio.

Mas o final de 2009 se aproximava e nós corríamos o risco de perder o visto. Então, finalmente, compramos a passagem. E reservamos hotel. E demos preços às nossas coisas.

Desde então, alguma coisa aconteceu comigo.
Perdi, totalmente, o interesse pelo Rio de Janeiro. Meus passeios de bicicleta, minhas praias, botecos, escaladas... Nada mais me interessa. Mesmo trabalhar anda exaustivo. E olha que andei profundamente viciada em trabalho. Só me interesso por ir embora. Por me despedir e sair. E o resto todo ganhou um tom cinzento chato.

O calor me oprime, o sol carioca me prende dentro de casa, as pessoas na rua me transtornam e me parece difícil demais encarar o dia a dia da cidade. Estou reclusa dentro da minha expectativa. É como se eu já estivesse lá. Mas ainda sim é como se ir embora não passasse de uma fantasia que, a qualquer momento, vai se desfazer.

É estranho finalmente estar tão perto de realizar um sonho e um projeto que já tem quase quatro anos. Ou melhor, quase quatro anos de projeto conjunto com a namoradaa, porque eu, sozinha, já fantasiei tanto conhecer a vida fora daqui, mas nunca me pareceu uma possibilidade real.

Esse post não tem conclusão. Acaba, simplesmente.
A expectativa de ir e viver o que quer que haja para ser vivido está mais forte do que eu.
E o medo vem junto. Prazer, sem medo, não é tão legal, eu acho.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Festividades insuportáveis


Fins de ano, carnavais e momentos de êxtase coletivo me deixam profundamente irritada e temerosa. É mais ou menos a mesma sensação que me dá quando uma turba de adolescentes entra no ônibus. Rindo, gritando, xingando, tirando onda.
Minha vontade é de sair correndo. Não, na verdade a minha vontade é de esganá-los. Mas não posso. Então fico irritada esperando que o tempo passe e torcendo para que eles se mantenham a uma distância segura.

Nessas festas apoteóticas de fim de ano tenho a mesmíssima sensação. Me sinto em plena Babilônia, com todos os outros seres humanos fazendo de tudo para se divertir escandalosamente. Há uma obrigação no ar: há de ser feliz. Esse tem de ser o reveillon mais incrível da história de toda a minha vida. Há de ser marcante. Há de me levar à loucura. E lá vão os seres humanos mostrar-se hiper-felizes bebendo todas, gritando, pulando, beijando, batendo, vivendo e morrendo, como se não houvesse o amanhã.

Mas amanhã há. Pelo menos para os felizardos que sobrevivem à experiência. Eu fico acuada, em um canto, tentando fingir que nada de anormal acontece. Pelo menos o reveilon dura apenas um dia. Mas sempre é seguido do carnaval que, no Rio de Janeiro, começa um mês antes, pelo menos.

Lá estou eu, voltando do trabalho, cansada, dez horas da noite, num ônibus que demorou quase uma hora para passar e, de repente, já quase em casa, eu me deparo com uma banda de carnaval fechando a pista. Eles bebem, eles gritam, eles querem que eu, sentada toda bonitinha dentro do ônibus, entre na farra. Eu não quero. Me chamam. Batem na janela. Eu digo que não e depois começo a mudar de lugar. Eles balançam o ônibus. Uns tentam entrar pelas janelas. Eu e a trocadora fechamos todas e o motorista começa a ameaçar avançar naquela gente... ah! cenas memoráveis dos carnavais...

Morar em Laranjeiras, onde devem passar, esse ano, uns 10 a 15 blocos, não ajuda em nada.
E esse ano nem dinheiro há para fugir: estarei dura, guardando cada trocado para minha grande mudança para o Canadá.

Pelo menos pude fugir este reveillon para um lugar seguro, frio, alto, sem luz e sem quase nenhuma gente. Lugar difícil de chegar e que, por isso mesmo, é um dos melhores lugares no mundo.


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Lua Cheia

Pra quem pôde olhar pra cima nas primeiras noites do ano, viu a assombrosa lua cheia que iluminou o céu. Lá do meu querido retiro, onde não há luz elétrica, a lua funcionava como um gigantesco holofote.

Sábado à noite, alguns seres humanos de idades variadas, resolveram ir tomar uma cachaça no abrigo onde eu estava hospedada. Fomos todos para fora, ver a lua nascer atrás de um morro. Estamos quase que em um cinema comentou alguém. Só que sem propagandas antes do filme. Ríamos e ficamos esperando. De repente, a cena impressionante, o morro pegava fogo com a luz avermelhada da Lua. Umas 15 cabecas assistiam em silêncio. Foi muito rápido. De repente, poft, a lua amarela que só ela surgiu enorme no céu. Foi muito rápido. Alguém tinha um relógio e comentou: nasceu em 3 minutos. Nossa! como foi rápido. Mas rápido do que... Do que fazer um miojo! brincou uma menininha. Rimos. Ali estava o merchandising que faltava.

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Passamos bastante tempo ali, as tais 15 pessoas, olhando a Lua, procurando estralas cadentes e apostando em corridas entre estrlas. Não, não era bem um momento hippie, era só que o espetáculo era realmente impressionante para ser ignorado. Não havia outro assunto possível a não ser a lua. E eu estava felicíssima com isso.

De repente, um espírito de porco cata o celular, se afasta um pouco e liga para um amigo. Fiquei indignada com aquilo, uma invasão total. Foi mesmo como se alguém atendesse o celular no cinema. Absurdo.

Então o cara inicia a conversa com o amigo: OI fulano, tudo bem? Onde você está? Você tá vendo a Lua? como é que está aí? Cara, aqui ela está assim e assado....
E ficou uns bons minutos conversando sobre a lua antes de desligar.

sábado, 31 de outubro de 2009

SOPA DE GOULASH DA BARBS

Eu nunca dei receitas pela internet, mas ontem resolvi cozinhar uma sopa de Goulash que ficou tão gostosa que achei que merecia a publicação. Infelizmente não tirei fotos.

Minha sopa não é bem a tradicional. Fiz uma complilação das receitas que peguei na internet e mudei ao meu jeito. Gosto de derreter as batatas e deixar o caldo bem grosso e bem vermelho. Foi a segunda vez que fiz essa sopa e acho que desta vez ficou no ponto certo.

INGREDIENTES:
- 1/2 kg de carne (eu uso alcatra)
- 2 batatas grandes
- 1 cenoura
- 1 cebola grande
- 3 dentes de alho
- 3 colheres de chá de páprica doce
- 3 colheres de sopa de extrato de tomate
- 1 colher de sopa de manteiga
- azeite extra virgem
- 2 tabletes de caldo de carne
- pimenta do reino e sal

PREPARO

Descasque a batata e a cenoura, corte em rodelas finas e coloque pra cozinhar em dois litros d`água. Faça isso antes de mais nada. A idéia é que a batata fique extremamente mole.

Pique a cebola, a carne em cubinhos de mais ou menos 1 cm e o alho. Refogue a cebola no azeite. Acrescente a carne e a manteiga. Deixe cozinhar um pouco. Coloque o alho, sal, pimenta e páprica. Misture bem. Acrescente o extrato de tomate e cozinhe por uns 3 minutos. Acrescente entao a agua dos legumes e complete com mais água se for necessário. No final deve ser colocado mais ou menos 1,5 L de água. Misture os legumes. Deixe cozinhar por mais quarenta minutos em fogo baixo ou até a carne ficar BEM macia. Se precisar, acrescente mais água ou regue com vinho tinto seco.

Sirva com um fio de creme de leite por cima e um pãozinho bacaninha.

Rende 4 proções.
Mas aviso: vai ser pouco. 

:-P

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Monstros tristonhos

Tatiana de Oliveira teve sua matrícula cancelada na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) menos de um mês após o início do curso de Pedagogia, no qual ingressou pelo sistema de cota racial. A instituição inscreve candidatos cotistas com base na autodeclaração de cor/raça negra, mas depois, com base numa entrevista, pode rejeitar a matrícula. O pai da estudante se define como "pardo" e o avô paterno, como "preto", mas uma comissão da UFSM que funciona como tribunal racial pespegou-lhe o rótulo de "branca".

Juan Felipe Gomez, cotista ingressante na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), conheceu sorte similar. A instituição impugnou sua declaração racial, recusando uma declaração cartorial na qual a mãe do jovem se identificou como "parda" e "afrodescendente", uma certidão de nascimento que identifica a avó materna de Juan como "negra" e um prontuário civil em que a mãe é classificada como "parda". Ele não está só: na UFSCAR, um quarto dos candidatos aprovados pelo sistema de cotas raciais neste ano teve sua matrícula cancelada em razão de impugnações do tribunal racial.

Segundo a lenda divulgada pelos arautos da doutrina racialista, a "raça negra" é constituída pela soma dos que se declaram censitariamente "pretos" com os que se declaram "pardos". Em tese, o sistema de cotas raciais está destinado a esses dois grupos. Então, por que os tribunais raciais instalados nas universidades impugnam mestiços como Tatiana, Juan e tantos outros?

A resposta encontra-se na introdução de um livro de Eneida dos Reis devotado a investigar o lugar social do mulato. O autor da introdução é o antropólogo Kabengele Munanga, professor titular na USP e um dos ícones do projeto de racialização oficial do Brasil. Eis o que ele escreveu: "Os chamados mulatos têm seu patrimônio genético formado pela combinação dos cromossomos de 'branco' e de 'negro', o que faz deles seres naturalmente ambivalentes, ou seja, a simbiose (...) do 'branco' e do 'negro'. (...) os mestiços são parcialmente negros, mas não o são totalmente por causa do sangue ou das gotas de sangue do branco que carregam. Os mestiços são também brancos, mas o são apenas parcialmente por causa do sangue do negro que carregam."

O charlatanismo acadêmico está à solta. Cromossomos raciais? Sangue do branco? Sangue do negro? Seres naturalmente ambivalentes? Munanga quer dizer seres monstruosos? Do ponto mais alto da carreira universitária, o antropólogo professa a crença do "racismo científico", velha de mais de um século, na existência biológica de raças humanas, vestindo-a curiosamente numa linguagem decalcada da ciência genética. Mas ele vai adiante, saltando dos domínios da biologia para os da engenharia social: "Se no plano biológico, a ambiguidade dos mulatos é uma fatalidade da qual não podem escapar, no plano social e político-ideológico eles não podem permanecer (...) 'branco' e 'negro'; não podem se colocar numa posição de indiferença ou de neutralidade quanto a conflitos latentes ou reais que existem entre os dois grupos, aos quais pertencem, biológica e/ou etnicamente."

É o horror - científico, acadêmico e moral. Mas, desgraçadamente, nessas frases abomináveis, que representam um cancelamento do conceito de cidadania, está delineada uma visão de mundo e exposto um plano de ação. De acordo com elas, a mola propulsora da história é o conflito racial e, no Brasil, para que a história avance é preciso suprimir a mestiçagem, propiciando um embate direto entre as duas raças polares em conflito. O imperativo da supressão da mestiçagem exige que os mestiços - esses monstros tristonhos condenados pela sua natureza à ambivalência - façam uma escolha política, decidindo se querem ser "brancos" ou "negros" no novo mundo organizado pelo mito da raça.

No veredicto do Grande Inquisidor que ocupa o cargo de reitor da UFSM, Tatiana foi declarada "branca" porque, em audiência diante de um tribunal racial, ela não testemunhou ser vítima de discriminação racial. A estudante, tanto quanto Juan Felipe e os demais rejeitados pelo Brasil afora, teve cassado o direito à autodeclaração de cor/raça por um punhado de inquisidores, que são professores racialistas e militantes de ONGs do movimento negro. Mas, antes disso, essa turma tomou de assalto as chaves de acesso ao ensino superior e, desafiando as normas constitucionais, cassou o direito de centenas de milhares de jovens da cor "errada" de ingressar na universidade pelo mérito demonstrado em exames objetivos. A massa dos sem-direito é formada por estudantes de alta, média ou baixa renda, com diferentes tons de pele, que compartilham o azar de não funcionarem como símbolos úteis a uma ideologia.

Esquece-se com frequência que a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação. A Lei Antimiscigenação da Virginia, de 1924, que sintetizava o sentido geral da legislação segregacionista nos EUA, definiu como "negros" todos os que tinham uma gota de "sangue negro". A Lei para a Proteção do Sangue Germânico, de 1935, na Alemanha nazista, criminalizava casamentos e relações sexuais entre judeus e arianos. A Lei de Proibição de Casamentos Mistos, de 1949, na África do Sul do apartheid, proibiu uniões e relações sexuais entre brancos e não-brancos. Raça é um empreendimento de higiene social: a busca da pureza.

Mestiçagem se faz na cama e na cultura. É troca entre corpos e intercâmbio de ideias. Os arautos brasileiros do mito da raça talvez gostassem de ter uma lei antimiscigenação, mas concentram-se na missão mais realista de higienizar as mentes, expurgando de nossa consciência a imagem de uma nação misturada. Cada um dos jovens mestiços pré-universitários terá de optar entre as alternativas inapeláveis de ser "branco" ou ser "negro". Para isso, e nada mais, servem as cotas raciais.

DEMÉTRIO MAGNOLI
(sociólogo e doutor em geografia pela USP)
email: demetrio.magnoli@terra.com.br
Retirado do Globo - Opinião - Quinta feira, 14 de maio de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

Preconceitos

Tenho pensado muito sobre preconceito. Há aquela frase que vira e mexe aparece por aí: "Onde mora o seu preconceito?" e que, por mais batida que seja, sempre mexe comigo.

Onde mora o meu preconceito? Em tantos lugares quantos pode haver. Sou uma pessoa preconceituosa sim, mas não diferentemente de todas as outras pessoas. Não é muito difícil observar o preconceito em cada esquina, em uma conversa, ou mesmo em um carinho em um cuidado, em uma oferta. Os preconceitos estão por aí, expostos para quem quiser vê-los. São tão comuns, fazem parte do nosso dia a dia tão corriqueiramente, que nós apenas não mais os notamos. Ou, pelo menos, fazemos grande esforço para não os notarmos. E para não nos expormos, também.

Por algum motivo, sempre que eu puxo o assunto "preconceito" as pessoas pensam imediatamente em racismo. Talvez porque esse seja o preconceito mais comumente observável. Mas me refiro a todo tipo de preconceito. Cor, religião, sexualidade, nacionalidade, naturalidade, estilo de vida, de vestir, lugares, atitudes, gírias, tatuagens, cortes de cabelo, amizades, visão poleitica, opniões diversas, gosto litereario. Meu Deus, é incrível a gama de coisas que pode gerar preconceitos.

Sentindo na minha própria pele, o preconceito que, a princípio, mais me deveria atingir é sobre minha sexualidade. Sou bissexual, o que significa, para quem não sabe, que sou discriminada tanto por heterossexuais como por homossexuais que não acreditam que bissexualidade seja uma coisa possível. Juro. Os homossexuais acham que bissexuais são pessoas mal resolvidas só por que são diferentes deles. Acusam os bissexuais de quererem "exercer" sua homossexualidade sem querer assumir o "estigma". Para muitos a bissexualidade é tão impossível quanto o monstro do armário. Ou talvez seja mesmo o próprio monstro. A verdade é que ninguém gosta muito do que é diferente. Travestis discriminam homossexuais masculinos e vice versa. Lésbicas discriminam todo mundo. E eu me acho uma estranha nesse meio todo. Tanto dos homossexuais quanto dos heterossexuais.

Como é ruim andar pela rua e ouvir buzinadas de carros. Ou piadinhas gritadas de uma obra. Ou discutir com motoristas de ônibus apenas porque estou com minha namorada, passeando.

Mas, para falar a verdade, esse não é o preconceito que mais me incomoda.

Na verdade o que mais me incomoda é ver como é fácil a gente enquadrar os outros por um pequeno pedaço de informação.

Meu irmão, por exemplo.
Ele é economista, formado pela UFRJ, com mestrado na USP e atualmente em NY, fazendo doutorado.
Não, ele não é rico. é, na verdade, um cara que sempre teve pouca grana. Mas não é sobre dinheiro que eu queria falar.
Meu irmão tem uma visão politica muito própria. Ele se recusa a ser de esquerda ou de direita. Ele procura ver prós e contras em qualquer situação (o que as vezes é realmente irritante).
Então ele pode amar o Lula e falar muito mal dele ao mesmo tempo. Pode odiar a politica externa americana e apoiar alguma parte dela. E quado ele entra em uma discução, ele entra para valer. Com dados, com teorias, com noticias e História.
Ele é um leitor inveterado e, ainda criança colecionava livros sobre a História das civilizações.
Nossos amigos têm certeza absoluta de que ele é um cara de extrema direita, apenas por ele não se submeter a ter a mesma opnião de todo mundo.
Isso o machuca extremamente.

MInha mãe sofreu muito preconceito qundo se converteu. Ela não tinha religião e me criou uma criança atéia, nunca frequentei igreja nenhuma nem tive qualquer relação com espiritualidade. Quando eu já era adolescente, ela comecou a procurar uma religião e, nesse processo, se evangelizou pela Igreja Presbiteriana. Ou seja, minha mãe é evangélica e diz isso em alto e bom som, apesar de, por conta disso, ter perdido o carinho e o respeito de muita gente. Ela deixou de pertencer ao grupo das "pessoas legais" porque entrou para o grupo das "pessoas sem cérebro e sem graça".

Um dos preconceitos que mais me atinge é sobre o meu temperamento. Tenho mania de ser recolhida, na minha, e de me afastar quando vejo que uma situação vai se tornar problemática desnecessariamente. Faço isso porque tenho um temperamento explosivo e, no passado, brigava muito com as pessoas. Com o passar dos anos, achei que era me lhor me recolher e esperar a turbulência passar antes de conversar sobre uma situação delicada. Mas sempre espero conversar e ter tudo preto no branco, tudo entendido, tudo explicado. Mesmo que daí não venha um entendimento, venha uma ruptura. Mas sou assim, gosto de tudo as claras. De uns anos pra cá notei que, muitas vezes, meus amigos me consideram uma pessoa dificil e me excluem de certas coisas porque acham que eu posso dar pití, posso bater boca, posso colocar alguém em alguma situação ruim. Muitas vezes é como se eles não me conhecessem.

Mas não, não é sobre esse preconceito que quero falar, porque ele é muito pessoal.

Um outro preconceito que me atinge é a respeito das minhas leituras.
Leio muito, compulsivamente.
E leio coisas muito variadas.
Gosto muito de romances, de poesia, de História, de Astronomia, livros de arte e de coisas ligadas a minha area, cinema.
Mas o meu fraco mesmo é por ficção científica.
Meu Deus, como gosto de ficcão! E como me apaixono pelas histórias!
Quando acabei de ler Farenheint 451 chorei por dois dias. Fui ao trabalho vermelha e inchada de tanto chorar. Passava horas olhando para frente, pensativa.
Quando me perguntavam o que eu tinha eu dizia: foi um livro. (O que já deve parecer completamente estranho). Quando me merguntavam qual, e eu respondia, quase podia ver as gargalhadas se formando na cara das pessoas.
Meu Deus! um livro de ficcao científica! Como alguém pode ficar assim por causa disso?

Não há respeito por esse tipo de literatura, principalmente por parte de pessoas "intelectualizadas". Elas não ficariam assim por tão pouco. Não, claro que não. E ali me julgam estranha, esquisita, boba. Nem sei, Mas me julgam e é obvio.
Esse tipo de coisa (que é bem corrente em minha vida) me magoa. Assim como também o pouco respeito que as pessoas têm pela minha opnião própria.
Se eu digo que sou contra a pirataria somali, sou a favor de guantanamo. Se digo que quero explodir o congresso, sou uma agente secreta americana, se digo que quero ter filhos e morar numa casa com jardim, sou tradicionalista, se ando de bicicleta quando tenho carro, sou esquisita e se peço para meus amigos fumantes que joguem seus cigarros em lugares apropriados sou polîcial anti-tabagista. Se sou contra cotas raciais, sou racista. Qaundo era estudante, tinha que ser do PSTU, mas se sou contra o PSTU, só posso ser pró-PSDB e se também não sou nada disso... não podia participar de grupos estudantis, porque nunca me encaixei.

Hoje li no jornal uma notícia que me deixou feliz e triste ao memso tempo.
Uma travesti, chamada Luma, professora de educação no Ceará, está fazendo doutorado e lutando para conquistar seu espaço na sociedade, principalmente na sociedade acadêmica que é ainda mais fechada do que boa parte do resto do mundo.
Luma conta que sofreu preconceito desde criança por gostar de coisas de menina e que, depois de passar em concurso público em primeiro lugar para alguma niversidade, foi barrrada pelo reitor que nao aceituou sua sexualidade. Lutou e conseguiu assumir o posto.
Puxa vida. Ponto para ela. Que reportagem para cima, né? Que bom que ela conseguiu sair do estigma de ser travesti de vida fácil. Ou mais uma cabelereira ou maquiadora. Legal.
Mas lá no fim da reportagem estava escrito: "Foi a primaeira colocada em um concurso em Aracati, mas o diretor se negou a empossá-la. Foi preciso intervenção da Corregedoria (...). E recebeu propostas para fazer programas sexuais em em Fortaleza. Recusou: - Tento mostrar as pessoas que existe outra forma de vencer."
Como assim, terminar a reportagem falando das propostas sexuais que recebeu?! Se vamos falar de vencedores do preconceito, não vamos mostrea-los como surgidos da lama que, a muito custo, não voltam para a lama. Vamos mostrar como pessoas comuns que brigam suas brigas e que mostram que "na sua diferença, você pode ser igual", como disse a própria Luma no meio da reportagem.

Pequenos e grandes preconceitos. Alguns são tão pequenos que a gente mal nota que eles estão lá.
São os preconceitos nossos de cada dia.

Somos todos tão diferentes e queremos ser diferentes.
Cada pessoa buscando sua individualidade.
Seria muito bom se pudéssemos ver as pessoas pelo que são.
As vezes me pergunto se o preconceito é parte daquilo que nos torna humanos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Israel, as origens e o presente - um protesto

Protesto que está rolando na internet.
A idéia é comparar o nazismo ao sionismo, uma vez que o recebte "conflito" na Faixa de Gaza deixou o mundo mais alerta para os reverses da História humana.

(Ps: As imagens abaixo me chegaram por email. Não sou autora nem tenho nenhum direito sobre elas.)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Fila de ingressos para o show da Madonna


Ou eu já passei da idade, não passei?


Segunda feira, dia 01 de setembro de 2008. Primeiro dia de venda de ingressos para o show da Madonna no Rio, 15 anos depois do primeiro. Eu, que havia dito para quem quisesse ouvir que não perderia o show por nada e que queria ir de VIP, acordei cedo e às 8h da manhã, junto com a esposa, cheguei à tal fila em frente ao maracãnazinho.

Eu estava preparada para encontrar uma fila bem maior do que a que encontrei. Deveria haver umas quinhentas pessoas na minha frente. Não era, de fato, muita gente. E às onze horas da manhã começaram a vender os ingressos. A fila parecia que iria andar rápido. Em pouco tempo avançamos os primeiros 50 metros. Parecia que em umas duas horas tudo estaria resolvido.

Ledo engano. O que tinha acontecido era a ilusão da fila que levanta. Que, quando um anda um passo, o de trás avança dois, o terceiro, quatro, e a gente, cinqüenta metros. Segunda feira seria um pequeno pesadelo adolescente. Um pesadelo que eu não vivi adolescente e que me sentia um pouco velha demais para passar por aquilo tudo. Horas de espera, fãs enlouquecidos, pessoas de todos os gêneros, idades, maquiagens, e uma equipe da tal tickets4fun desrespeitosa e ineficiente. Além da ausência de poder público, insegurança e gente mal educada.

Saí de lá onze horas depois, de posse de 5 ingressos para mim e minhas amigas, exausta e puta da vida. Ou furiosa, como disse de mim uma jornalista. Eis os motivos da revolta nada adolescente, da qual fui tomada:

Primeira (má) notícia do dia
O mistério dos ingressos VIPs

Mal abriu a bilheteria, seis pessoas teriam sido atendidas e... foram esgotados todos os três mil ingressos VIPs. Várias pessoas que viraram a noite lá, que estavam no começo da fila certas de que conseguiriam comprar os melhores lugares ficaram a ver navios. E se revoltaram, fizeram confusão, com razão. Quiseram quebrar tudo. Mas de nada adiantou. Minutos depois alguns cambistas ofereciam os mesmos ingressos a quem quisesse comprar por 2 mil reais. Os mesmíssimos que valiam 600, na boca do caixa. Mais revolta. Em seguida um homem conseguiu comprar o ingresso VIP na bilheteria, pagando inteira. Logo depois de uma menina que queria pagar meia não conseguir. Mais revolta. Ela chama a polícia. Um funcionário pega o telefone dela e promete um ingresso VIP. O mistério só cresce.

Eu havia passado a manhã lendo o jornal de domingo, no qual havia uma reportagem grande sobre a farra dos ingressos no jogo da final da Libertadores, achei premonitório.


Segunda (má) notícia
O sistema de venda de ingressos

Passavam-se os minutos, as horas e a fila mal se mexia. Quando dávamos dois passos o fato era comemorado com gritos e aplausos. Eu, Mari e nossos amigos de fila nos revezávamos percorrendo a fila até o começo para ver qual era a situação. E então soube-se que a fila não andava porque o sistema de venda de ingressos caís continuamente. Por quê? Porque o sistema era o mesmo para o Maracanazinho, para o outro ponto de vendas e para a Internet, o que congestionava tudo. A Internet caía e a gente caía também. A notícia veio acmpanhada de outra: a de que os mesmos ingressos eram oferecidos em todos os três meios de vendas. Ou seja: Se demorávamos uma hora para 20 pessoas comprarem ingressos na fila, nessa mesma uma hora milhares de pessoas poderiam comprar ingressos via Internet. O que significava que nós poderíamos passar o dia inteiro ali e sair de mão abanando. Para nós não havia qualquer reserva de ingressos.

A empresa respondia a isso dizendo que queria facilitar ao máximo a comprar dos ingressos, economizar o tempo dos fãs e essas babaquices todas. Mas o que é realmente estranho é que, pela Internet há uma tal de “taxa de conveniência” de 20% do valor do ingresso. Mais 20 reais para entrega em casa. Ou seja, um ingresso que custa 600 reais, sairia, pela Internet, 740 reais. Ou seja, para quê dar qualquer prioridade a quem estava na fila, se o lucro era muito maior pela Internet?

Mas a empresa não era apenas malandra. Era também ruim e despreparada, pois o sistema on line travava o tempo todo e muita gente passou a madrugada inteira sem conseguir conectar ou sem conseguir efetuar a compra. Ou mesmo sem conseguir confirmar que havia efetuado a compra mesmo depois de ter dado os dados do cartão de crédito.

As notícias percorriam a fila. A última, ao meio dia era a de que apenas 3 pessoas haviam comprado ingressos VIPs na Internet. O resto havia evaporado. Invencionice ou verdade, aquilo pareceu a todos muito possível e foi repetido por milhares de bocas, como em um telefone sem fio.

Terceira (má) notícia
Ou a santa esperteza de alguns
Ou somos todos uns filhos da puta


Daqui a pouco um amigo de fila vem revoltado e conta: há uma fila para terceira idade lá. Está cheia de velhinhos de aluguel, as pessoas oferecem 50 reais e o velhinho entra na fila. Tem também um monte de mulher gorda se fazendo de grávida. E gente arrumando umas crianças e colocando no colo.

Muita gente também ficava na grade de proteção da bilheteria oferecendo 50 reais para que o “da vez” comprasse seu ingresso.

Mariana vai lá ver. Reclama com a organização. Eles informam que nada podem fazer. E pronto.

Nada podiam fazer também para organizar a fila. Havia furões se enfiando na frente de todo mundo. As pessoas começaram a dar as mãos para fazer um cordão de isolamento. Nenhum funcionário ajudava. Os furões começaram a ser linchados. A desorganização era tanta que daqui a pouco ninguém mais sabia quem era quem. A fila de velhinhos tinha gente de qualquer idade. E não havia a quem pedir socorro.

Toda hora vinha uma notícia “lá da frente” de que estava instaurada uma confusão e que por isso a fila não andava.

Quarta (má) notícia
Os (três) funcionários despreparados
Ou Brincando no arraiá


Uma única funcionária da empresa percorria a fila dando notícias. Acabaram os ingressos da cadeira central. Depois voltava. Foi um erro do sistema, só acabaram os VIPs. Depois de novo. Agora acabaram mesmo as cadeiras centrais. Voltava mais uma vez: não, desculpem, ainda tem, foi um erro do sistema.
(olha chuva! Uhhhh! É mentira! Ahhhhh!)

Não havia a quem reclamar de nada, então reclamei com aquela moça mesmo: vocês estão numa desorganização só. Cadê a ordem da fila? Cadê outros funcionários? A fila não anda! Quem está controlando os cambistas? Ela me respondia. A fila anda sim. É lento, mas anda e nós estamos fazendo o melhor que podemos. E pronto.
O melhor que eles podiam era colocar aquela funcionária percorrendo a fila e dando notícias podiam ou não ser verdadeiras.

Na fila dos velhinhos havia um outro funcionário. A gente reclamava de que os 40 velhinhos tinham 3 caixas enquanto mais de duas mil pessoas só tinham sete. E ele disse: Vocês deveriam aprender a reclamar antes de reclamar. Virou as costas e foi falar com outras pessoas. Eu comecei a gritar mais e mais. Os amigos de fila ficaram preocupados comigo: você está muito nervosa, não vai adiantar nada. Eu respondia: contanto que ele fique nervoso também está tudo certo. Eles, que também não tinham amis o que fazer, se juntaram em mim em coro: Mal educado, mal preparado, filho da puta. E assim seguíamos.

Daqui a pouco chega uma mulher e grita: reclamei da fila dos velhinhos que anda rápido enquanto a nossa está parada. Sabe o que o funcionário respondeu? que eu deveria alugar um velhinho que nem todo mundo e furar a fila. Estou indo para a polícia agora mesmo.


Quinta (má) notícia
Ou polícia para quem precisa!

Em um determinado momento, depois de ver cambistas agindo livremente, depois de não ver policiamento nenhum para dar apoio a um monte de gente obviamente cheia de dinheiro, depois de uma fila mal organizada, eu fui lá na frente tirar satisfações e chamar a polícia. Me veio um policial a paisana, que não se identificou. Foi comigo até mais ou menos onde eu estava na fila. Pediu para que eu identificasse os cambistas. Eu mostrei alguns a ele e ele disse: Ok. Agora você tem que ficar esperando algum comprar, me chamar e ir para a delegacia comigo, ele e o cara que comprou. Eu perguntei se eu teria que ficar cara-a-cara com o bandido ele disse que eu não estava nos EUA. E que eu teria que testemunhar o crime, senão não havia crime. Eu falei: mas a polícia está ali (havia um carro, com dois policiais dentro parados há horas, sem se mexer), por que ela, que está vendo tudo, não faz alguma coisa? Porque não adianta nada. Como assim? É, no final, não adianta nada mesmo. Para que prender? Indignada, ainda pedi por favor para colocar algum policial fazendo a ronda da fila, pois éramos alvo fácil para bandidos. O policia respondeu que isso também não ia adiantar nada, que eles não iam poder ajudar a gente. Virou as costas e foi embora. Me deixando de cara com os cambistas que me encaravam.

Nisso uma repórter e abordou e escreveu uma matéria me classificando de jovem furiosa.

Pois é. Jovem furiosa. Logo eu...


Ps: Outro indignado:
http://www.madonnanow.com.br/mznews/noticias.php?mzn_pg=2

domingo, 24 de agosto de 2008

A solidão



Estou sozinha em casa, em silêncio.
Bom, não totalmente em silêncio. O fato de digitar, as teclas, o ventilador do computador, tudo isso são barulhos meus. Somados a eles vêm outros tantos barulhos do corredor de ar do prédio. Há um fim de festa, gente rindo. De vez em quando alguém toca um piano e há aplausos. O vizinho de trás vê televisão no quarto. Do outro lado da rua um casal conversa, animado, na janela. Um carro passa. Depois não passa. Depois passa outro. Então há todos esses barulhos preenchendo o vazio da solidão.

Gosto do barulho do teclado. Me faz uma companhia insubstituível. Não é sempre que ele se impõe sobre o resto. Meus computadores, colegas de trabalho, fazem muitos barulhos. São janelas para histórias que eu ajudo a contar. Sou editora de vídeo. Estou editando vídeos sobre a solidão. E aqueles barulhos, e as músicas, e os gestos solitários de personagens sem solução me fazem companhia noite à dentro, quase toda noite.

(O celular agora toca e interrompe. Falo. Passa.)

Esses personagens com os quais convivo. Tenho pensado muito neles. Sozinhos, solitários, sofridos. Tenho pena dessa solidão que eles vivem. Solidão que é um espelho da solidão de quem escreve, ou do medo da solidão de quem escreve aqueles personagens. Conheço esse medo de vê-lo nas pessoas. As pessoas não gostam de se sentir solitárias, elas procuram companhia, elas procuram outras pessoas, a Tv, o telefone, ouvir música. Eu não. Eu gosto de ficar sozinha, em silêncio. A cidade me transtorna um pouco com todos os seus barulhos. É difícil parar de prestar atenção no mundo quando há gente, visível ou ouvível, em todas as direções. Amo a solidão. Amo estar sozinha em casa. Troco fácil a noitada, os amigos, a farra, pela noite all by my self em frente ao computador, junto do livro ou olhando para a parede.

Gosto de repensar minha vida o tempo todo. Gosto de imaginar a possibilidade de voltar no tempo e mudar umas coisas. Repenso meus momentos de desespero, repenso e imagino-me saindo daquilo. Não sei se há aí uma ingenuidade, ou uma tirania. Certamente há a esperança de que não me deixe cair na mesma armadilha.
Gosto também de sentir raiva. É bom sentir raiva quando se está sozinha. Às vezes acontecem coisas que me dão verdadeiro ódio, mas eu prefiro adiar o ódio para a solidão. Prefiro gritar com as paredes e fantasiar vinganças. De preferência vinganças a serem concretizadas.

Eu gosto da solidão para planejar coisas más.
Eu gosto da solidão para me atormentar com coisas ruins.
Eu gosto da solidão também para imaginar um futuro bem bacana.
Às vezes megalomaniacamente bacana.
Tipo mega sena, iate, mansão, mulheres.
Tipo uma festa bacanérrima de aniversário.
Tipo torturar e matar uns políticos filhos da puta.
Tipo ter filhos e netos.
Tipo rever uma amiga que tem tempo.

Eu gosto de ficar sozinha também para não pensar em nada.
Perder meu tempo cutucando uma espinha, cortando unha do pé, fazendo bagunça.
Não gosto de desperdiçar qualquer oportunidade.
Por isso não dói trabalhar com aqueles personagens solitários do Ceylão. Não dói porque eles não me tocam. Na verdade, por mais que eu os veja e os construa também, eu não os compreendo. O desespero da monotonia não me atinge. O desespero de não ter com quem também não me atinge. Me atingem as pessoas, isso sim. Mas a solidão é como uma casa, um refúgio, um lugar sempre possível. Sempre viável. E sempre propício a me levar de volta ao mundo dos outros. Afinal, a solidão feliz de uma pessoa sempre atrai uma multidão de gente.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Balzaquianas

Caí em mim finalmente. Sim, eu vou fazer os temidos 30 anos e não, não é o fim do mundo. Pelo contrário. Caí em mim: estou louca para que chegue logo o dia. Eu vou fazer trinta anos!

Tinta anos. Eu tenho esperado por esse dia há quantos anos? Não sei. Imaginei tantas coisas, tantas coisas para mim. Tive muitos sonhos. Sempre imaginei que, quando fizesse 30, eu seria assim e assado. Na minha adolescência, eu me ia casada, com filhos pequenos, batalhando muito e com algum dinheiro no bolso. Algum bom dinheiro no bolso, quero dizer. Adultesci imaginando que não era tão difícil assim conseguir ter uma certa grana sobrando. Minha inteligência e minha educação seriam suficientes. E eu queria que isso viesse acompanhado do sonho americano. Casinha com cerca branca, filhos, cachorro.

Pois é, eu admito. Fui mesmo uma adolescente esquerdista, muitas vezes radicalmente esquerdista, mas que o que queria mesmo era ficar adulta vivendo o sonho americano. Por quê? Ainda não descobri.

Depois o tempo passou. Desisti dessa coisa de ter filhos antes dos trinta (espero tê-los antes dos quarenta). Desisti de ficar rica. Mas ainda sonhava com ter alguma grana sobrando e uma carreira de sucesso. Namorava essas figuras de revista Você.sa que, com trinta anos, já têm tudo, já conquistaram tudo...

Mas, estranhamente, quanto mais eu me aproximava dos trinta, mais tudo isso parecia distante. Minha incrível faculdade, a UFRJ, não parecia mais tão incrível assim. Greves, atrasos, maus professores, nenhuma avaliação, currículo confuso e um desinteresse crescente meu por tudo aquilo. Quis abandonar e quase o fiz. Mas eu pensava: não. Quero ter diploma para, caso for presa, ir para cela especial.

Hahaha. Pensava isso mesmo. Pensava e dizia, para quem quisesse ouvir. Com todas as letras. Bom, a gente nunca sabe do futuro, né? E nesse país de merda, onde quem tem mais tem mais e vive melhor é mais bem tratado, eu queria fazer parte do grupo de exclusão. E não me arrependo. Tenho o tal diploma. Me serviu para conseguir um emprego naquela empresa, a tal da Petrobrás.

Eu e Petrobrás, todo um capítulo à parte. Não vou contar muito porque não posso. Fui proibida na justiça de falar sobre o que me aconteceu na Petrobrás. Mas digo que foi feio, que foi escroto, que me fuderam e que quem me fudeu tem fama de ser uma pessoa revolucionária e defensora dos diretos dos trabalhadores. Uma dessas figuras de esquerda, ex-guerrilheira, fundadora do PT. Essas merdas. Bom, nada mais banal do que ser fudida por uma dessas figuras. Mas não posso falar nisso. Só digo que entrei na justiça e que a justiça me fudeu de novo.

Bom, falei da Petrobrás porque, quando comecei a trabalhar lá, parecia que finalmente eu ia realizar certos sonhos de infância de ser aquela mulher bem sucedida e tudo... logo deu merda e eu perdi aquele posto de mulher bem sucedida, e aquele dinheiro de mulher bem sucedida, e parei de usar aquelas roupas de mulher bem sucedida, e perdi a pose, e meu pai me olhava de novo com aquela cara de que eu era uma adolescente sem rumo e sem razão...

E nunca meu sonho de ser isso e aquilo aos trinta anos pareceu tão distante.

Depois disso, tentei não pensar mais no assunto. Tentei abstrair. Tentei fingir que a idade, os anos passando, não me incomodavam. Mas incomodavam. E, de repente, eu não sabia mais o que eu queria para quando fizesse trinta anos. Acho que, com o tempo, eu comecei a querer me sentir adulta. E apenas isso. Adulta.

Faz pouco tempo tive um desentendimento com meu pai. Mais um, depois de anos e anos de desentendimentos. Mais um. Esses desentendimentos me deixam exausta. Não que eu tenha tido muitos entendimentos com ele. Não, não tive. Bom, ele acha que teve comigo, mas é uma fantasia louca da cabeça dele. Dessas fantasias que os pais, quanto mais distantes são de seus filhos, têm em relação a eles. Tive esse desentendimento e foi a gota d’água. Fiquei um tempo sem falar com ele e quando finalmente falei, reuni toda a minha coragem e toda a minha análise e toda a sinceridade e boa vontade e escrevi um email. Não muito longo. Não muito curto. Escrevi um email direto e sincero. Disse as coisas principais e pedi que me respeitasse, me olhasse de frente, me encarasse como o ser humano adulto que sou. Meu pai respondeu evasivamente. Respondeu esquivamente. Respondeu sem nexo. Não o entendi. Não o entendo. A única coisa que eu entendi perfeitamente foi a frase: a lembrança que tenho de você é a de uma criança pendurada na estante e me olhando... e não quero trocar essa imagem por nenhuma outra.

E foi ao ler isso que eu entendi. Eu sou realmente uma pessoa adulta. Quando duvido de mim mesma, das minhas capacidades, de quem eu sou, do que eu quero e tento me moldar, eu estou dando trela ao meu pai, que me vê como uma criança. Um ser sem voltades próprias, sem ambições próprias, sem capacidade de se decisão e de se manter. E aí pensei: tenho quase trinta anos e não preciso de nada disso. Eu sou auto-suficiente. Eu sou totalmente capaz de me virar sozinha. E eu sou feliz. E sim, eu tenho minha casa, eu tenho minha esposa, um dia terei filhos e, finalmente!, eu tenho uma profissão.

Nunca estive tão bem na vida.
E vou fazer trinta anos.
Vou ser exatamente o que quero ser.
Uma pessoa criativa, viajante, com os pés no chão e a cabeça na lua.
E um saco de problemas sempre aparecendo, mas nada que eu não consiga lidar.
Eu sou meu próprio porto-seguro.
E não preciso de pai.
Nem de mãe.
É bom, não precisar deles.
E me reservar o direito de querer ou não a sua companhia.

Afinal, eu sou adulta. Vacinada. E que paga as próprias contas.
Demorou, mas aconteceu.

sábado, 19 de julho de 2008

ASSUNTO PARA PESQUISA: BÁRBARA NUNES

Coloquei meu nome no Google e isso foi o que eu encontrei:

1 – EU! Meu filme O Golpe Alien no CurtaAgora. Alias o Golpe Alien está em muitos lugares...

2 – Milhares de perfis de adolescentes e universitárias em blogs, no LinkedIn e sites correlatos. Também em sites de procura de empregos.

3 – Eu de novo, no IMDB

4 – Uma professora de negócios americana que, pelo que entendi, busca emprego

5 – Uma especialista em ciências criminais

6 – Uma terapeuta ocupacional que não sabe falar português

7 – Eu de novo. Posts de 2006 do Uns&Outros

8 – Mais e mais perfis em sites de relacionamento. Mas esses eu não tenho paciência para olhar...

9 – Eu! De novo! Quando passei para a segunda fase da FUVEST

10 – Uma outra Bárbara Nunes que também passou para a segunda fase da FUVEST

11 – Uma tal de Bárbara Nunes Gonçalves que, desde quando eu estava prestando vestibular, em idos de 1998. Ela sempre aparecia nas mesmas listas de aprovandos que eu e eu disputava internamente com ela, uma colocação imaginária. Ora, eu era a melhor Bárbara Nunes

12 – Uma antropóloga (eu acho)

13 – Eu de novo! Fotos minhas no site do meu clube excursionista

14 – A estudante de um colégio chamado Sta Bárbara e que se chama Bárbara Nunes Silva (quase eu!) (estranho não é achar alguém com esse nome, pois todas as partes dele são muito comuns. O mais estranho foi eu nunca ter achado antes. Houve um episódio anos atrás em que eu perdi o meu cartão do banco do Brasil em Brasília. Precisei fazer um saque com minha identidade, mas não me lembrava os dados da conta. A incrível descoberta foi que, ao buscar quantas Bárbara Nunes e Silva existiam no sistema deles, só apareceu eu!)

15 – Uma dançarina portuguesa

16 – Eu de novo. Meu blog Hoje Eu...

17 – Uma fotógrafa no Rio Grande do Sul, que dá cursos à comunidade

18 – A partir da página 7 todas as páginas acabam com meu blog Hoje Eu...

Bom, vamos ver se encontro alguma figura interessante ainda mais para a frente... ou se me encontro de novo, em outro lugar... Antigamente tinha uma puta, uma cientista e uma professora... OU seria uma professora de ciências puta? Vamos ver se encontro...

1 – Minha Colocação em primeiro lugar em Produção Cultural na UFF. Nunca cursei. Inda bem. Produção? To fora!

2 – Olha! Uma Bárbara Nunes auto-centrada que tem um blog e não sou eu!

3 – Eu! Nos agradecimentos do livro do Peréio, pode? Parece que está disponível para download. Olha que máximo!

4 – A Bárbara Nunes Gonçalves está em todas as listas de aprovados de todos os concursos imagináveis e a Bárbara dançarina também está em todas.

5 – Eu de novo! No site Paralelos, em matéria sobre aquele livretinho que lançamos no final da Oficina Literária da UERJ. Me lembro bem dessa matéria. Foi finalizada com uma citação à minha poesia para minha musa Clarisse, mas a pessoa cultíssima que escreveu a matéria me corrigiu! O nome da minha musa certamente era Clarice, não é verdade? E eu é que sou inculta e não sei escrever!

Ah! Chega. Cansei.
Conclusão?

1 – Há muitas Bárbaras Nunes andando por aí, e já há uma Bárbara Nunes Silva. Daqui a pouco eu serei afogada no meio de tantas homônimas.
2 – Os sites de relacionamento são uma praga e, na busca por uma pessoa, você dá de cara com um monte de perfis babacas. Que saco!
3 – Muitas dessas Bárbaras são umas adolescentes chatas. Odeio adolescentes. Desde a primeira vez que vi um!
4 – A outra coisa que enfesteia é esse monte de lista de aprovação em concurso. Que saco!
5 - Este blog no qual vos escrevo não tem absolutamente nenhuma relevância no google...

Fui até a página 25 dos resultados Google. Qualquer dia crio coragem e continuo.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

EM DEFESA DA LIBERDADE E DO PROGRESSO DO CONHECIMENTO NA INTERNET BRASILEIRA

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX.

Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais. A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.

A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural. A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial.

A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana. E nós brasileiros sabemos muito bem disso. A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês. E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, "Educação e Carreira", ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil.

Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência. Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral. O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso.

É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos. Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância.

Se, como diz o projeto de lei, é crime "obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida", não podemos mais fazer nada na rede. O simples ato de acessar um site já seria um crime por "cópia sem pedir autorização" na memória "viva" (RAM) temporária do computador.

Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando. Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do "blogging" na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém! Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao "transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado", "sem pedir a autorização dos autores" (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los).

Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos. O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos... Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum "dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular"?

Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras. Defendemos a necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante. E a Internet é um importante instrumento nesse sentido.

Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.

Por estas razões nós, abaixo assinados, pesquisadores e professores universitários apelamos aos congressistas brasileiros que rejeitem o projeto Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo ao projeto de Lei da Câmara 89/2003, e Projetos de Lei do Senado n. 137/2000, e n. 76/2000, pois atenta contra a liberdade, a criatividade, a privacidade e a disseminação de conhecimento na Internet brasileira.

André Lemos, Prof. Associado da Faculdade de Comunicação da UFBA, Pesquisador 1 do CNPq.

Sérgio Amadeu da Silveira, Prof. do Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, ativista do software livre.

João Carlos Rebello Caribé, Publicitário e Consultor de Negócios em Midias Sociais

*****

Para assinar a petição, clique aqui.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Genocídio de Ruanda 1994

Acabei de ler um livro chamado "Sobrevivi para contar", escrito por uma mulher sobrevivente ao genocídio, Immaculée Ilibagiza. Immaculée sobreviveu ao extermínio de mais de 800.000 pessoas, inclusive o de quase toda a sua família, durante o genocídio de Ruanda, quando o governo Hutu incitou os cidadãos a caçarem, matarem e esquartejarem todo e qualquer Tutsi que vissem pela frente. Immaculée era tutsi, portanto estava na lista para ser exterminada e foi caçada por aqueles que haviam sido seus vizinhos, amigos e professores no passado. Sobreviveu graças a ajuda de um pastor hutu, que a escondeu em um pequeno banheiro junto com mais sete mulheres.

Minhas ignorâncias

Tutsis, hutus, Ruanda...

Me lembro vagamente de estudar alguma coisa sobre esse conflito enquanto acontecia. Sabia que Ruanda ficava na África. Sabia que os tutsi e os hutu eram dois grupos étnicos que viviam em Ruanda e que guerreavam, mas acho que nunca compreendi o que estava acontecendo. Era 1994, eu estava cursando o primeiro ano do segundo grau e minha ignorância sobre qualquer coisa relativa à África era apenas pouco menor do que a que tenho agora.


Resumindo a história
Ou, o pouco, muito pouco, que sei sobre Ruanda.

Ruanda é um pequeno país no centro da África.

Bom, é meio estranho começar assim. Queria falar um pouco da história de Ruanda. Mas Ruanda só existe depois da colonização. Depois que os europeus foram lá, demarcaram terras, dividiram entre eles e decidiram, depois de algumas disputas (tipo a primeira guerra mundial), que país iria ganhar qual pedaço da àfrica. Antes disso a África era um continente vasto, cheio de florestas,

mosquitos, animais perigosos e vanibais até onde nossa vista ignorante pode alcançar.

Portanto a história de Ruanda começa no século XIX, quando ela é "dada" à Alemanha. Posteriormente o controle sobre o país foi passado para a Bélgica.

Para controlar o país, que depois ainda se dividiu em dois, Ruanda e Burundi, os belgas se aproveitaram de um antigo sistema de poder entre as duas tribos dominantes do local, os tutsi e os hutu. Os tutsi eram uma minoria, mas eram eles que reinavam e controlavam a população local, de maioria hutu. Os belgas colocaram os tutsi para trabalhar com eles e lhes deram poder e liderança. Dessa forma procuravam controlar a população local com certa facilidade. Mas a parceria não durou muito, pois logo os tutsi se revoltaram contra os belgas e quiseram a independência. Acreditando que os hutu seriam mais fáceis de controlar, os belgas inverteram o sistema de poderes. Os hutu, que tinham grandes ressentimento contra os tutsi, os discriminaram e caçaram durante décadas. Muitos tutsi foram exilados nos paises visinhos.

Em 1990, uma força guerrilheira formada pelos tutsi exilados, a FPR, invadiu Ruanda tentando derrubar o governo. O governo hutu começou a fazer propaganda via rádio contra os tutsi, incitando a população ao ódio. Entre derrotas e vitórias, o governo e a força revolucionária tentavam chegar a algum acordo. Mas em 1994 o presidente hutu foi morto quando seu avião foi derrubado, logo que voltava de uma negociação pela paz. Com isso o gorverno passou a incitar a perseguição, a matança e a violência generalizada contra os tutsi, o que se extendeu também contra os hutu moderados, acabando por exterminar 800 mil pessoas.


Um trabalho a fazer

O governo incitava a população a parar tudo para se dedicar exclusivamente à caça de tutsi. Fecharam escolas, fábricas e o comércio. Nada mais funcionava. Ninguém deveria trabalhar até que o trabalho de exterminar as "baratas" tutsi fosse terminado. O governo utilizou-se de dinheiro cedido pela ONU para financiar a compra de milhões de facões, fuzis e revólveres que distribuiu pela população. Todos os meios de comunicação se dedicaram exclusivamente a pregar a limpeza étnica.

E o mundo assistiu calado. A ONU se retirou, os brancos foram evacuados.

E, em seguida, já não existiam ruas em Ruanda, existiam apenas pilhas de corpos, ossos, roupas, casas destruídas. Um cenário demoníaco.


Voltando ao livro

Pois é, Immaculèe sobreviveu a isso tudo escondida em um banheiro de 1m x 1,30m.

No livro ela conta a história do massacre sob um ponto de vista muito pessoal. Conta como a fé em Deus a salvou. As horas no banheiro apertado, onde mal podia se mexer e não podia fazer qualquer barulho para não atrair a atenção dos assassinos, e como gastou essas horas em transes em que pedia a Deus para perdoá-los, para ser capaz de amá-los pois eram filhos do mesmo Deus. Como sentia que o diabo tentava fazê-la perder as esperanças, como dizia a ela que ela estava mentindo a deus, pois em realidade odiava e queria a morte de seus perseguidores. E como ela conseguiu superar todas as suas angústias, medos e rancores pelo amor a Deus. E conseguiu perdoar. Mais tarde, quando a guerra já havia acabado, ela foi visitar o assassino de seus pais na cadeia. Ele havia sido seu vizinho. Aproveitara a situação para roubar os pertences da família. O carcereiro do assassino colocou-o na mesma sala com Immaculèe e disse a ela que ela poderia fazer com ele o que quisesse. Ela o perdoou.

Não, eu não acredito em Deus. Mas achei linda a fé dessa mulher. A capacidade de perdoar a monstruosidade alheia.


Mas, falando sobre isso...

Minha educação formal me ensinou que a África é um subcontinente, que só existe por causa da Europa. Antes dos europeus chegarem lá, não existia nada que merecesse qualquer atenção em aulas de história. E mesmo depois...

O que me foi ensinado é que lá os europeus conseguiam estabelecer-se e caçavam escravos pelas matas. Traziam esses escravos para as Américas e... bom, depois os europeus fizeram a primeira guerra mundial para disputar os territórios africanos. Uma vez estabalecido o que era de quem, ficou tudo bem, o mundo seguiu em paz...

Agora, sobre a história desses povos que habitavam e habitam a àfrica, nada sei. Como ficaram esses países, um pouco de história... Ah! nada disso é importante. A gente estuda no máximo um pouquinho sobre a África do Sul porque... Por que mesmo? Deve ser essa culpa judaico-cristã... temos que falar do apartheid, não é mesmo? E só.

Como pode um pais em que metade da população é formada por pessoas negras ou mestiças, simplesmente ignorar todo um continente? Como podemos não saber NADA sobre nossas raízes?
O apartheid existe de muitas formas...




E falando sobre o Apartheid...

Ontem deu no jornal que os EUA resolveram finalmente tirar Nelson Mandela da lista dos terroristas internacionais mais procurados. Ele estava lá por ter lutado contra o Apartheid.

Os EUA realmente sempre foram bons em apontar o dedo para bandidos internacionais...

E o melhor, os jornalistas brasileiros se limitam a comemorar o fato. Ninguém questiona nada.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Nos moldes do Insujeita

O Insujeita sim, que era blog de verdade. Desses que a gente sempre atualiza, que a gente cuida, lustra, que alguém visita com alguma freqüência. Este não. É um trambique só. Não sei nem a que se propõe. Se há algum clima de alguma seriedade nele. Não sei. Este blog é um blog abandonado. Não serve de análise, de exposição ou de diário. Não serve, simplesmente.

Bicha trambiqueira. Eis o que sou.

Na verdade esse blog é praticamente um resumo da minha existência.

Horas, dias em silêncio.
Ou não. Na verdade para mim é difícil me calar.
Passo meu tempo escrevendo poesias que ninguém lê.
Mas que esforço eu faço para que as leiam?

Bicha trambiqueira, eis o que sou.

E o blog morre por falta de publicação.
Ou não morre. Os blogs permanecem aí não importa o que.

O Insujeita ta lá.
Ta lá e eu nem nunca mais olhei para ele.
O Insujeita existe apesar de mim.

Outro dia recebi um email de uma amiga que me dizia ter ganho um livro sobre blogs femininos. E o Insujeita estava lá. Com análise e citação. O Insujeita, que não existe mais enquanto blog, mas enquanto lembrança, serve também como objeto de estudo.
É um bom motivo para não deletá-lo. Mas não é possível atualizá-lo porque não existe mais a pessoa que atuaizava o Insujeita.

Na verdade a pessoa que atualizava o Insujeita morreu anos atrás. Enquanto ainda havia o blog e foi substituída por muitas outras. Mas teve uma hora que as diferenças entre aquela que se auto-intitulava (como diziam meus marcianos) Insujeita e a que atualizava o blog era tanta que não houve jeito senão abortar a operação.

E novo blog criado para nada.
Um trambique só.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Eu vou estar falando do Gerúndio

Outro dia Mari vira para mim, feliz da vida, e conta que o Governador de Brasília, cansado de ouvir seus secretários responderem suas perguntas no gerúndio, daquela maneira peculiar que nós vamos nos estar acostumando a ouvir, resolveu abolir o gerúndio por decreto.

A tal proibição, ou melhor, a demissão do Gerúndio (com letra maiúscula assim mesmo), gerou grande polêmica na mídia, pelo menos na mídia internética. É só colocar no Google para ver. Eis que hoje me deparo, no caderno de opinião do Globo, com uma explicação do próprio Governador para a publicação de tal decreto no Diário Oficial.

Gostei. Concordo em parte com ele. Em parte discordo.
Mas achei, de qualquer forma, que o texto era bom e merecia ser publicado aqui, neste blog de uma bicha trambiqueira.
Segue aí. Boa leitura.

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Gerundiando

Agora que a demissão do gerúndio já deu o que falar, gerou opiniões e produziu efeitos, vale uma reflexão mais consistente sobre a ineficiência do setor público no Brasil.

A Constituição de 1988 pode ser adotada como um marco. O Brasil redemocratizado, que não mais seria governado por um general de plantão, precisava de regras muito sólidas para que o poder, devolvido à vontade popular, não fosse usurpado por interesses menores e ilegítimos.

O Dasp, nessa época, já tinha modernizado o setor público e já entrava em pavoroso colapso.

O Brasil das grandes estatais, da Petrobras e quanta mais fossem necessárias para o nacionalismo estatizante em meados do século passado, tinha feito Itaipu, Tucuruí, Ponte Rio-Neterói, Belém-Brasília, aeroportos, num modelo de desenvolvimento que tinha no Estado a sua força propulsora.

Foi aí que a Constituição de 1988 pegou as leis e decretos secundários e os constitucionalizou, olhando o Brasil pelo espelho retrovisor, pelo que já tinha acontecido e não pelo que já começava a acontecer no mundo inteiro.

Olhando o passado, a Constituição de 1988 ainda achava que a economia era o Estado, e foi feita para proibir roubar. Não conseguiu essa proibição pela letra da lei, mas obteve um outro êxito: proibiu fazer. A 8.666, a lei das licitações, é filha desse êxito.

Enquanto caía o Muro de Berlim, caía o socialismo soviético, a Internet ligava as pessoas e os mercados, vieram a competitividade internacional, os fluxos de capital de investimentos e os especulativos, no Brasil tinha a reserva de mercado, tabelamento de preços, atraso e caos até a redenção do Plano Real e do nascimento de uma vigorosa economia de mercado.

E o setor público? Continua com suas regras e meios retrógrados, que acreditam que podem proibir roubar por decreto, e só conseguem proibir fazer.

Tem de tudo. Controle interno e controle externos. Exame antecipado de editais e auditorias durante e depois de suas publicações. Departamentos de fiscalização e grupos de fiscais que, contratados por concurso público, têm suas próprias regras garantidas na Carta Magda. E tome Tribunal de Contas, Ministério Público, Controladoria, Ouvidoria, licensas ambientais prévias, audiências públicas, prazos de recursos, decurso de prazo, diários oficiais, comissões de licitação, comissões de inquérito, tomadas de contas especiais, compensações ambientais, licensas de implantação, e, como isso tudo custa caro, CPMF, taxas de fiscalização, imposto sobre tudo e sobre todos – e está pronta a receita do não-roubar.

Resultado final: o roubo continua livre, mas o fazer está cada vez mais complicado.

Até porque muitos funcionários públicos honestos acabam entendendo que a forma mais simples de não ter que dar explicação é não fazer nada.

É assim que a atividade-meio ganha da atividade-fim, que a ineficiência ganha dos resultados, e que os governos são vistos cada vez mais com desesperança.

Demiti o gerúndio. Demiti o fazendo de conta. Tenho desprezo pelo Diário Oficial numa sociedade que, graças a Deus, tem imprensa livre. Por que não acabar com essa herança medieval de Diário Oficial? Mostrei sua ineficiência demitindo o inexistente, uma figura de linguagem. Por que não apareceu nenhum servidor exigindo, para a dita publicação, o seu número de matrícula?

Demiti com desprezo pelas regras retrógradas. Provei-as ineficientes diante da vontade do governante, mesmo quando ridícula.

E não é que publicaram a demissão do gerúndio?

Com saudades de Hélio Beltrão e com saudades do futuro, mãos à obra para, com ousadia e, se necessário, com irreverência, modernizar o setor público brasileiro.

José Roberto Arruda
Governador do Distrito Federal
O Globo 25OUT2007 – Opinião – Pg. 7

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Aproveitando, um bom texto que encotrei na internet sobre essa mania de gerundiar (aliás com o mesmíssimo título):


Gerundiando

Este texto foi feito especialmente para que você possa estar recortando, imprimindo e fazendo diversas cópias, para estar deixando (deixar) discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível que parece estar se disseminando na comunicação. Além disso, você pode também estar transmitindo por fax, remetendo pelo correio ou enviando pela Internet.

Não estão sabendo do que eu estou falando?

Gerúndio, eis a questão. Mas não estou me importando com isso... O mais importante é estar garantindo (garantir) que os gerundistas vão estar recebendo esta mensagem, de modo que possam estar lendo e, quem sabe, consigam até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo o que costumam estar falando deve estar soando um verdadeiro pavor para quem precisa estar ouvindo o que for dito.

Sinta-se livre para estar difundindo tantas vezes quantas você vá estar julgando necessárias para estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral ou escrita. É por isso que estou postando este texto no blog. Para estar alcançando todos aqueles que estiverem blogando, navegando pela internet ou apenas surfando pela web.

Mais do que estar repreendendo ou até mesmo caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha das pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.

Temos que estar nos unindo para estar mostrando aos nossos interlocutores que, sim, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito.
Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar migrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases aberrantes o dia inteirinho.

Sinceramente: nossa paciência tem estado a ponto de estar estourando.

Um simples "Eu vou estar transferindo a sua ligação" que eu vá estar ouvindo, poderá chegar a estar provocando alguma reação inesperada. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos. As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia.

Você dispensa o verbo auxiliar e o verbo de ação no gerúndio e aplica diretamente o mesmo verbo de ação no infinitivo!

É uma construção elegante, limpa, correta, muito mais fácil e com significado claro e indubitável! Vamos despachar para bem longe do nosso belo idioma essas construções aberrantes!

A regra é clara: depois de verbo auxiliar no infinitivo NUNCA se aplica verbo de ação no gerúndio!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

As Aventuras de Sir Ernest Shackleton

No começo do século XX a humanidade vivia um momento de grandes explorações nos confins da mundo. Queríamos desbravar os pólos norte e sul, chegar aos lugares mais isolados e perigosos da Terra. Acontecia uma espécie de corrida expedicionária aos pólos. Em 1909 um americano, Robert Edwin Peary, foi o primeiro homem a chegar no Pólo Norte e, a partir daí, a corrida se acirrou por quem primeiro chegaria ao Pólo Sul, ainda inexplorado. Era uma corrida entre homens e entre países. Em 1911 Roald Amundsen, um explorador norueguês, e Robert Falcon Scott, da Marinha da Inglaterra, partiram de pontos diferentes da Antártica conseguindo os dois, chegar ao seu objetivo, porém como duas grandes diferenças: Amundsen chegou ao Pólo Sul um mês antes de Scott - e conseguiu voltar vivo da aventura. Os corpos de Scott e seus companheiros foram encontrados seis meses depois: morreram de frio e de fome a poucos quilômetros do acampamento onde encontrariam abrigo e comida.

Shackleton, um marinheiro e explorador inglês, também tinha o sonho de conquistar o Pólo Sul. Nos primeiros anos de 1900, já havia estado pelo menos duas vezes na Antártica, realizando, ele mesmo uma tentativa, mas foi obrigado a voltar por diversos problemas no percurso. Quando soube que a conquista do ponto mais ao sul do mundo já havia sido realizada, Shackleton decide empreender uma aventura ainda maior: cruzar a Antártica de ponta a ponta, por terra, passando pelo Pólo Sul.
Era uma questão de recuperar a honra da Inglaterra e, ao mesmo tempo, uma chace pessoal de fazer fama e fortuna.

Ele demorou cerca de dois anos para conseguir os recursos para empreender a jornada. Por fim os consegue vendendo os direitos sobre os filmes, fotos, livros e palestras que pretende realizar sobre a aventura. Compra dois navios: Um para levá-lo ao ponto de desembarque, o Endurance, e outro para buscá-lo ao final da jornada. Milhares de pessoas se inscrevem querendo participar da viagem, mas apenas 26 são selecionadas para acompanharem Shackleton a bordo do Endurance. Entre esses homens estão marinheiros, foguistas, pesquisadores, médicos, navegadores, um fotógrafo, um cozinheiro e um desenhista. Em uma breve parada na Argentina se infiltra no navio um jovem irlandês, descoberto quando já estavam em alto mar, a caminho da ilha Geórgia do Sul - última parada antes da grande caminhada. Além dos homens, o navio carrega ainda cães, provisões, armas, livros, diários... São 28 os homens que, no verão polar de 1914, chegam na estação baleeira da ilha Geórgia do Sul.

A partida para o continente é adiada por mais de um mês devido ao mau tempo. Logo que o Endurance se lança ao Mar de Wendell, um dos mais traiçoeiros da Terra, começa a encontrar grandes icebergs e muito gelo até que, em meados de janeiro - pleno verão antártico, o navio fica preso no gelo. A partir desse momento a tripulação começa a viver uma das maiores e mais incríveis aventuras que o homem já experimentou.

Sinceramente, ir à Lua não foi nada perto do que eles foram capazes de realizar.

Resumindo muito resumidamente, o navio fica preso por todo inverno e os homens sobrevivem, com certo conforto dentro do navio, se alimentando das provisões que tinham levado. Mas em meados de outubro o gelo começa a se derreter e a se mover e acaba pressionando e quebrando o barco. Os homens são evacuados depois de lutarem dias seguidos contra o gelo e a água. Desembarcam e, algum tempo depois, o navio é tragado pelo mar. Shackleton então tenta empreender uma viagem, a pé, até a ilha Paulet, distante algumas centenas de quilômetros, onde sabia haver um estoque de comida e onde eles poderiam esperar por um resgate. Mas depois de três dias extenuantes eles haviam avançado pouco mais de três quilômetros e ficou óbvio que a viagem não seria possível. Acamparam, então, em uma banquisa de gelo.

Apelidaram a banquisa de Acampamento Oceânico. Como a banquisa se mantinha em movimento, tinham a esperança de que, até o final do verão, ela os levasse para próximo da Ilha Paulet. E realmente, depois de alguns meses estavam muito mais próximos, mas então o vento e as correntes mudaram e eles acabaram se afastando cada vez mais do objetivo. Shackleton decidiu, então, avançar por terra, o que provou ser uma péssima ideia pois, depois de três dias de viagem, eles ficaram presos em uma banquisa muito menor, impossibilitados de seguir em frente ou de voltar por conta do gelo quebradiço. Chamaram o novo acampamento de Acampamento Paciência e ali passaram muitos meses se alimentando de focas e pinguins e racionando alimentos que haviam trazido do navio. Com o tempo e a fome se agravando, sacrificaram os cachorros e os comeram. Um dia a banquisa começou a se partir, e, depois de ficarem espremidos em pedaços cada vez menores de gelo, lançaram-se ao mar nos três pequenos botes salva vidas que haviam carregado consigo. Com esses botes enfrentaram icebergs e vagas de até dez metros em um verdadeiro labirinto de gelo.

Os ventos, as ondas e os icebergs os mantinham constantemente gelados e molhados. Os barcos eram pequenos demais para que eles pudessem se deitar, então o máximo que faziam era ficarem sentados juntos, tentando se manterem aquecidos. Os barcos ficaram à deriva e, cada vez que traçavam uma rota para alcançar uma ilha, eram jogados pela correnteza e pelos ventos para um lado completamente diferente. Até que, depois de mais de uma semana, chegaram à ilha Elefante, uma ilha completamente desabitada e onde ninguém, ainda, havia colocado os pés. Foi a primeira terra firme em que pisaram depois de quase 500 dias, mas não adiantava muito pois o inverno estava chegando e ninguém iria ali para resgatá-los. Além disso, com a chegada do frio os animais dos quais eles podiam se alimentar iriam migrar e a fome era quase uma certeza. Para completar, o único lugar onde podiam ficar na ilha era uma pequena praia, cercada de altas montanhas e geleiras intransponíveis.

Shackleton decidiu pegar o melhor dos barcos, o Caird, que tinha pouco menos de 7 metros de ponta a ponta, e com mais 5 homens e lançou ao mais perigoso mar do mundo, atravessando 1,3 quilômetros, para chegar na Ilha Geórgia do Sul - um pequeno ponto no mapa cercado de águas geladas, onde poderiam ser resgatados. Os homens escolhidos para fazer a viagem não eram apenas os melhores ou mais necessários, mas também os que teriam maior probabilidade de causar problemas se ficassem para trás com os outros. A viagem tinha uma probabilidade mínima de sucesso, se é que tinha alguma. O barquinho pequeno, desconfortável e lotado de pedras (que faziam peso para que o barco não virasse) não era nada perto dos vagalhões de 20 metros que eles encontravam, um após o outro, incessantemente. O vento vinha de todas as direções e o barco precisava ser constantemente desafogado de água. Era praticamente impossível comer por causa das náuseas. Estavam todos completamente molhados pelas ondas e pelas tempestades que não davam trégua. Fazia em torno de -10oC.

Em uma das noites, Shackleton estava no leme quando olhou para o céu e viu uma abertura clara em meio às nuvens. Chamou os companheiros para dividir a boa notícia quando, de repente, descobriram que o que haviam visto não era uma abertura nas nuvens e sim espuma que refletia a luz do céu de cima de uma onda gigante que se aproximava. Quase foi o fim deles, mas, por milagre, sobreviveram também à onda. Toda vez que as coisas pareciam que iriam melhorar, pioravam. A água doce que levavam ficou insalubre, pois foi contaminada pela água do mar e por pêlos de rena que se desprendiam de seus sacos de dormir apodrecidos. Suas línguas incharam por conta do sal impedindo-os de comer. Quando finalmente avistaram terra, depois de duas semanas no mar, se depararam com enormes penhascos onde ondas de até dez metros arrebentavam. Da felicidade passaram ao desespero e ficaram dois dias trabalhando no limite de suas forças para escapar da ilha e se manter em alto mar - na tempestade. Finalmente conseguiram encontrar um trecho estreito de praia onde aportaram.

Chegando lá se descobriram em uma praia desabitada, do lado oposto da ilha onde estava a estação baleeira. Seriam 240 km para se percorrer com o pequeno Caird, muito mais do que ele poderia aguentar- a essa altura já estava muito debilitado e fazia água em poucos minutos. Shackleton decide que a travessia deveria ser feita por terra, em linha reta, cobrindo uma distância de 35 km.

No entanto a ilha ainda não havia sido ainda explorada por dentro e não havia mapas das montanhas que deveriam atravessar - apenas do litoral. Shackleton escolheu os dois homens mais fortes e, apenas dois dias depois de aportar na ilha, munidos apenas com as botas esfoladas com solas recheadas de parafusos (colocados para aderir melhor ao gelo) e um martelo de carpinteiro, sem levar nenhum peso extra, nem mesmo os sacos de dormir, começaram a caminhada por entre fendas, geleiras e montanhas que chegavam a ter 3 mil metros de altura. Caminharam por 36 horas praticamente sem parar para descansar. Durante a noite quase caíram no sono fatal do frio, mas Shackleton conseguiu evitar o desastre, obrigando-os a permanecerem sempre caminhando. Se eles morressem, os todos os 28 tripulantes do Endurance morreriam.

Quando finalmente chegaram à Estação Baleeira, barbados, negros de fuligem e gordura de foca, com os cabelos longos e roupas esfarrapadas, ninguém conseguiu acreditar que aquilo pudesse ser verdade - que Shackleton estivesse vivo juntamente com sua tripulação. Haviam sido dados como mortos há mais de um ano. Imediatamente os marinheiros puseram-se em barcos para buscar os três que se encontravam do outro lado da ilha. Naquela noite houve uma grande celebração, onde todos os capitães e marinheiros da estação fizeram questão de apertar as mãos daqueles homens, já legendários.

Desde que o Caird - o pequeno bote de salvamento - havia partido da Ilha Elefante, haviam se passado quase cinco meses. Era difícil para os 22 homens que permaneceram na ilha acreditar que ainda seriam socorridos. Mas Shackleton estava esse tempo todo tentando chegar a eles, impedido porém pelas péssimas condições do inverno polar. O resgate aconteceu, finalmente, em 30 de agosto de 1916.

O 28 tripulantes sobreviveram e o que sofreu com os maiores problemas físicos, o irlandês que embarcou de gaiato, perdeu apenas parte de um pé que se congelou. Uma história para ser contada. Pelo menos eu assim fiquei compelida a fazer, depois de ler um livro a respeito da aventura. Recomendo. É de parar o coração a cada página. É também absurdamente inspirador.

Mapa da viagem


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Shackleton morreu poucos anos depois, em 1922, na mesma ilha Geórgia do Sul.
Havia voltado à Antártica pois não suportava a vida longe do continente branco e de suas aventuras.
Morreu vítima de uma bactéria, com uma doença semelhante à gripe.