sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Cotas para negros e indígenas nas universidades - mudanca de opinião



Eu estou vindo aqui para dizer que mudei totalmente de ideia a respeito das cotas raciais nas universidades.

Aliás, não só nas universidades... na máquina publica, na publicidade, nos desfiles de moda, nos empregos em geral.

Explico: até alguns anos atras, eu achava que cota racial era um racismo que, embora nao me afetasse diretamente (eu sendo branca classe média), afetaria os brancos (ou menos negros) de classes mais baixas.
Eu achava que a gente tinha que superar essa história de raça, afinal, somos todos humanos.
Eu achava que cota social faria o milagre de trazer os negros para o ensino universitário público, pois eles são a maioria dos pobres, anyways.
Eu achava que os negros que fossem admitidos dessa forma sofreriam discriminação dentro da sala de aula.
Eu achava que era um modelo americano importado que so mostrava o quão vassalos nos somos dos EUA.

Inclusive publiquei um texto aqui neste blog a este respeito.


E por isso, mesmo que ninguém nunca leia, eu vim aqui dizer que eu sou a favor das cotas raciais para negros e indígenas.

E o que me fez mudar de ideia?
Foi uma mudança de ponto de vista que foi trabalhada por mim, durante anos, após um pequeno incidente.

Eu era produtora de um pequeno talk show de televisão. Um dia fomos a uma produtora onde um cineasta-ativista negro daria sua entrevista. Entre a entrevista e a nossa saída comecei a conversar com um dos caras que trabalhavam por lá e, por algum motivo, o assunto foi parar nas famigeradas cotas universitárias. E lá fui eu, toda trabalhada nos meus privilégios, dizer que era contra cotas pelos motivos acima. O rapaz era boa gente e teve paciência... até que não teve mais e foi ríspido. Me disse que eu estava sendo racista.

EU?! RACISTA?!

Entramos na van para ir para a próxima locação.

Eu fui logo falando para a equipe de som e câmera o quanto aquele cara tinha sido injusto comigo e me chamado de racista só porque eu tinha dado uma opinião contrária às cotas. Afinal, qual o problema de eu discordar? Só porque eu sou branca?!

No momento em que eu disse algo nessas linhas reparei que a única branca na van era eu.

Eles me olharam em silêncio e não responderam nada.
Eu era chefe.
Eles iam falar o quê?!

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CORTA PARA

Eu andando nas ruas com furia e desconforto.
Fui chamada de racista.
Logo eu! que queria ter cabelo negro pra fazer penteados incríveis!
Logo eu! que amo Oxossi!
Logo eu! que sou contra todo e qualquer preconceito!
Logo eu!
Não! Eu não sou racista!

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CORTA PARA

Eu sai com um amigo recém feito.
Nos entendemos muito bem e eu precisava dizer em voz alta pra alguém.
Então eu disse:
- Eu acho que sou racista...

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CORTA PARA

A minha descoberta do feminismo.
A minha descoberta do ativismo gay.
A minha descoberta de blogs de feministas negras.

E eu comecei a olhar pra dentro e ver em mim...
Um monte de preconceitos que eu não tinha ideia de ter...
ou que eu nunca tinha olhado de verdade e visto o quão eles eram feios.

Eu! Logo eu!
Machista, homofóbica, transfóbica, gordofóbica, classista... e racista.
Como tudo aquilo podia estar dentro de mim?
Puxa, eu sempre fui tão legal... ninguém diria que tinha tanto lixo no meu coração.

E vou dizer que passei quase dois anos de puro ódio de mim.
Eu chorei todos os dias.



FADE OUT

FADE IN

Aceitei.

Sim, tenho isso tudo dentro de mim.
Não sou diferente da sociedade na qual cresci.
Entendi que o fato de eu ser branca, classe média e ter crescido heterosexual, moldou muito quem eu sou e o modo como percebo o mundo.
Não tenho como escapar. Essa sou eu.
Mas eu posso mudar. Eu posso agir. Eu posso me transformar.

E nesse momento eu estou em transformação.
Consigo entender que tudo o que vejo vem dessa perspectiva privilegiada minha.
Mas o fato de ser mulher, de ser queer, de ser latina (agora vivo no Canadá) e de abrir meus olhos para os preconceitos que EU sofro, para as limitações de ser quem eu sou, está abrindo meus olhos para os preconceitos que outros sofrem. E passei a sofrer com eles.

O nome disso é empatia.

E quando alguém me diz: você esta sendo preconceituosa! por mais que eu discorde eu paro pra ouvir. Eu pergunto: por quê? Eu quero saber. Eu posso não mudar de opinião na hora, mas vou pensar sobre o assunto. Mesmo que demore anos, eu vou pensar. Eu tenho pensado.

VOCÊ QUER O QUE? UMA MEDALHA?

(acho essa pergunta pra lá de válida) (acho que muita gente quer uma medalha)

Não. Eu quero ser uma pessoa melhor.
E quero ajudar a outros que são pessoas boas, mas ainda estão vivendo dentro da própria na bolha.
Por isso eu encho o saco de geral.
E, dizem alguns por aí, tenho mudado umas cabeças.
E tenho brigado muito, que faz parte.

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E AS COTAS?

Então, mesmo depois dessa transformação toda eu ainda não era a favor das cotas.
Mas eu achava que havia algo de errado em ser contra as cotas. Eu achava que eu estava errada, mas não conseguia entender como, até que um dia meu pensamento simplesmente mudou.

E eu devo isso a milhares de blogueirxs por aih que vivem questionando os privilégios alheios e os próprios.

Textos como o do (maldito) Alex Castro e, mais recentemente, esse texto feminista muito interessante da Sueli Carneiro, me fizeram ter uma ideia mais clara sobre meus posicionamentos. Se algum dia alguém que, como eu, esta querendo mudar de opinião, recomendo ler muitos blogs. Especialmente a galera do Blogeiras Negras. Ajuda muito.

Simplificando o que penso hoje, e para dar uma conclusão em mais um texto longuíssimo:

- Eu fiz faculdade publica porque estudei numa escola privada. Eu estudei nessa escola porque meus pais pagaram. Meu pai tinha dinheiro porque ele eh engenheiro. Ele eh engenheiro porque a mãe e o pai, apesar das dificuldades, tinham cargos públicos e ele pode estudar, eles tinham esses cargos públicos porque tiveram também a possibilidade de estudar. Se você seguir minha árvore genealógica irá chegar em algum momento em que minha família tinha escravos. Minha família eh branca. Minha familia nunca perdeu nenhuma oportunidade por causa da cor da pele. ninguém na minha familia teve que fugir por sua liberdade. ninguém teve os filhos vendidos. ninguém foi coisa. ninguém trocou a escravidão pela miséria. ninguém foi impedido de estudar por causa da cor da pele.



- os negros foram impedidos de estudar durante quase todo o curso da nossa História

- Como consequência, estavam excluídos da possibilidade de votar, pois apenas os homens livres, e depois os homens alfabetizados (apenas em 1932 tivemos o voto feminino), podiam fazê-lo

- pessoas negras não têm muitas figuras de poder para se espelhar. A grande maioria dos politicos, líderes, CEOs, advogados, médicos, atores, eh branca

- Negro na TV eh empregada doméstica, ladrão, pedinte, cozinheiro, puta

- Crianças negras descobrem logo que são negras, enquanto crianças brancas são "normais" (parte da norma) e, quando muito, "não vêem cor"

E tudo isso e muito mais, amiguinhos e amiguinhas, influencia a possibilidade dessas pessoas de "cor diferenciada" entrarem na universidade, se formarem, deslancharem na vida. Isso se sobreviveram a um mundo que as considera perigosos inimigos a serem contidos, podados, vigiados, ridicularizados, eliminados.

Outro dia mesmo, um professor de História, negro, teve que dar uma aula sobre Revolução Francesa a fim de provar para policiais que não era bandido e, assim, escapar de um linchamento público porque... ele tinha cara suspeita. Cara, cor, cabelo, nariz. You name it. O cara era preto. Bastava isso pra ser linchado.

Então, não, uma criança negra, um adolescente negro, um adulto negro, um negro de qualquer idade, enfim, não tem as mesmas oportunidades que eu tenho. Mesmo que ele seja de classe média. Porque essa pessoa vai ser sempre preto. O preto. Aquele preto. O moreninho. O moleque. O do cabelo ruim. O de nariz de batata. Aquele ali, olha, com cara de marginal.

E os indígenas.... Ah, os indígenas... eles foram usados, escravizados, mortos, exterminados, mutilados, proibidos de falar a própria língua, perderam a maior parte de suas terras e de sua cultura e hoje a gente chama eles de vagabundos, tanto no Brasil quanto no Canadá.




CONCLUSÃO RESUMIDA

Sou a favor das cotas pois vejo nelas um movimento no presente para compensar, mesmo que de leve, um dano feito no passado e para criar a possibilidade de um futuro em que não precisemos mais delas.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

"Eu gosto de ser branco" "Racista!"

Há uma tirinha rolando por aí que "brinca" com o politicamente correto.


Um menino negro diz pro outro que gosta de ser negro. o outro (branco) retruca que gosta de ser branco e é chamado de racista. Depois o 1o menino diz gostar de ser gay e o outro diz gostar de ser heterossexual e é chamado de homofóbico.

Esse quadrinho me é extremamente ofensivo.
Por que?

Porque ele brinca com uma falsa simetria.

Bom, começo pelo fato de haver uma desonestidade intelectual. A discussão não é "gosto de" ser assim ou assado. A discussão é "tenho orgulho de" ser assim ou assado. A pessoa que fez esse quadrinho fez essa alteração de propósito, para desmerecer a discussão do orgulho.

Claro que qualquer pessoa pode gostar de ser quem é e não há qualquer problema nisso. O problema está no orgulho.

Uma camisa escrito "100% negro" demonstra orgulho.
Não é um orgulho qualquer.
É o orgulho da sobrevivência, da luta, da resistência, diante de um mundo racista.
Que nos digam os americanos de Ferguson.




100% branco numa camisa significa sim, racismo. Orgulho de ser branco? De ter explorado milhões de pessoas negras e indígenas? Orgulho de ser puro e não ter outras raças? Depois de usar a camisa melhor vestir outra, a da KKK. Ter "orgulho branco" não é apenas negar uma historia de opressão, mas ter orgulho dela.

Uma parada do orgulho gay nunca poderia ser equiparada a uma parada do orgulho hetero pelo exato mesmo motivo.
No orgulho gay celebramos nossa luta diária para sermos respeitados, termos nossos direitos reconhecidos e, cada vez mais, equiparados aos dos outros cidadãos. Tudo começou em Stone Wall como um movimento de revolta e luta pelo direito à nossa existência. Ainda hoje somos perseguidos, mortos, emprisionados e muitos são obrigados a se refugiar em outros países apenas pelo fato de sermos quem somos.




Então batemos no peito (quando podemos) para dizer: tenho orgulho de ser gay, bi, trans.

E ter orgulho hétero é simplesmente querer negar nossa luta e ridiculariza-la. Ou mesmo é fazer parte dos que nos acham doentes, querem nossa cura ou extermínio.

Basicamente o autor dessa tirinha faz parte de um grupo crescente de pessoas que quer colocar a culpa do racismo e da homofobia nos grupos discriminados, como se o problema estivesse na nossa cabeça e fosse criado por nós.


Mas a verdade é que ninguém é morto por ser branco ou heterossexual.

Então, por favor, parem de replicar essa besteira, essa merda.
Simplesmente parem.
Pensem e entendam: vocês estão errados.
Acontece. O bom é que sempre podemos mudar de ideia.

Beijinhos no ombro.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Compilação de relatos do confronto nas ruas do Rio de Janeiro 20/06/2013 - pessoas no facebook


Compilação de denuncias no Facebook de  Ivan Accioly - jornalista:


Seguem alguns relatos que copiei de uma outra mensagem. Não precisa de mais comentários. Basta ler. Indignação. 

Por favor, ninguém mais, em tempo algum, me peça para apoiar movimentos reivindicatórios de PMs. obrigado!

Lapa Irish Pub: "A Festa Cult hoje virou um bunker, infelizmente. Estamos trancados aqui com várias passando mal nas ruas devido aos gases lançados pela polícia."

Circo Voador: "To agora no Circo Voador e a policia facista acaba de jogar 3 bombas de gás lacrimogêneo aqui dentro. Sendo q uma delas foi jogada do meu lado no backstage. Meu olho ta ardendo e lacrimejando, muito enjoo e todos que estao dentro do Circo Voador pq a policia esta prendendo todos que estao na rua. Uma noite de evento e somos agredidos e feridos por essa merda de governo. Estou bem, mas nao tem como sair daqui."

Bar Arco íris - "Alguns frequentadores xingaram os policiais e um dos PMs voltou e mostrou o dedo médio para eles. Outro também voltou e soltou uma bomba de gás lacrimogênio dentro do bar, mas os clientes conseguiram chutá-la para fora. Uma segunda bomba, no entanto, caiu dentro do bar, fazendo com que muitas pessoas passassem mal."

"Bomba de gas tao forte que a gente no 12 andar nao conseguiamos respirar!!!! Lapa foi sitiada! Forca nacional estavam invadindo o bar da cachaca!

"Tomei porrada de cacetete e tapa na cara da Tropa de Choque. Obviamente sem identificação... Foi na volta pra casa, em uma rua praticamente vazia e pacífica. Era uma gangue de uns 10, que surgiram em motocicletas, tacando bombas pro alto. Jogaram trabalhadores, inclusive o pobre pipoqueiro, contra a parede. Passaram o rodo, bateram em todos nós, clamando gritos de guerra. É ditadura?"

"A polícia está passando em motos e jogando bombas e spray por nada em quem estão encontrando na Lapa!"

"A PM continua fazendo arrastão na Lapa, atirando em todo mundo, nem manifestação tem mais por aqui, mas a PM insiste em passar atirando nas pessoas, eles estão passando em grandes combois marchando e atirando"

Laranjeiras:
"A gente que não pode ir a manifestação, a manifestação vem até a gente. Trabalhando no mercadinho, rua das laranjeiras 90. Final da noite fomos presenteados com bomba de gás lacrimogênio. Cliente, cozinheiro, garçom, tudo se correndo junto.
Absurdo, triste, raiva. Espero que a força do povo não diminua, vamos pra rua. Amanhã tem que ser maior. Se depender de mim será."

Largo do Machado:
"Direitos humanos e Advogados pelo amor de Deus, estão colocando as pessoas deitadas no chão do centro do RJ, vai rolar um massacre por la, policia, exercito e força nacional estão em formação juntamente com a cavalaria da Lapa a Cinelandia no largo do machado estão batendo nas pessoas que chegam de metrô, retiraram os onibus da ruas para as pessoas não conseguirem ir embora.."

Centro:
"Estávamos parados no ponto de ônibus em frente a Central esperando o ônibus para irmos para casa, quando policias do Choque em motos passaram e simplesmente jogaram spray de pimenta em todos!"

Hospital Souza Aguiar:
"O Batalhão de choque invadiu a emergência do Souza Aguiar para reprimir ao manifestantes e jogaram dentro da emergência várias bombas de gás de pimenta e lacrimogênio, os médicos do Hospital Municipal Souza Aguiar precisaram entrar na frente e impedir a invasão até de salas com pessoas sendo atendidas, foram veículos do choque como se fosse uma guerra. Há total confusão na região, ninguém entra ou sai do Hospital Municipal Souza Aguiar, sitiado!!.



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Sobre o ataque ao Souza Aguiar: depoimento da medica Daniela Judice. Não compartilhem, copiem e colem em seus perfis para que a mensagem não seja apagada.
Texto:
Estava de plantão hoje no Souza Aguiar. Hospital preparado para receber os pacientes graves vindos da manifestação. Vi jovens de bem com rombo no rosto feito por bala de borracha atirada pela policia. Nao foi só um.
Plantão acaba as 20 Hs. Tentávamos sair quando de repente gritaria e fumaça entrando pelo hospital. O gás pimenta subiu pelas escadas ate alcançar a pediatria no sétimo andar do hospital. Arde tudo por dentro.
O que e isso, gente???? Vários funcionários passaram mal. Mães e crianças aspirando aquele horror. No SÉTIMO andar!!!! Nos isolamos dentro do CTI. Conseguimos sair de lá as 22:15, passo pela Presidente Vargas que parecia vitima de um tornado.
Agora chego em casa e acompanho na Globonews o que aconteceu na porta do hospital. Meia dúzia de manifestantes pedindo pra policia nao atirar porque ali era um HOSPITAL, e, mesmo assim, o despreparado policial se posiciona, mira e atira duas bombas!!!!!!!! O que e isso meu Deus???!!!!!!!As pessoas ali estão DOENTES!!!!!


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Policial com máscara dos Anonimuys.

Acabo de presenciar um fato gravíssimo. Neste instante testemunhei a saída de uma Blazer Branca descaracterizada saindo do Batalhão de Choque da Polícia Militar o motorista da viatura estava com uma máscara dos Anonimuys. Amanhã comunicarei oficialmente a Secretaria de Segurança.

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Paulo Halm

Quase fui espancado por um grupo de fascistas, lumpéns drogados e uns mascarados infiltrados que queriam ( e conseguiram ) impedir que as bandeiras da CUT fosse estendida. Eles nos atacaram, destruiram a primeira bandeira, e depois, investiram, arrancaram e rasgaram uma segunda bandeira que sequer foi aberta. E um sujeito, provavelmente um oficial de reserva, um beócio de direita ficou gritando para nós: "fora daqui, seus comunistas (sic). Aqui não é lugar de vocês, seus vermelhos. Não queremos mais comunistas nas nossas (sic) ruas". E isso a poucos metros do caminhão de som da direção da passeata que fez vista grossa para a agressão e ficava repetindo que a manifestação era pacífica. E pra piorar, depois que destruiram as duas bandeiras vermelhas da CUT, um dos dirigentes do ato falou, é melhor vocês recolherem suas bandeiras, pra evitar confusão. Isso aconteceu as cinco horas da tarde, em plena Candelária. Esse incidente apenas confirmou minha opinião deste movimento: uma micareta despolitizada, desorganizada e anti-partido. E completamente tolerante aos provocadores, infiltrados e fascistas em geral.


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Anonimo:

Olha, galera, o que aconteceu é que e estava às quase dez da noite na Lapa, na pizzaria Guanabara, parecia uma noite de fim de semana comum, muita gente bebendo nos bares e tal, a polícia passou, pessoal xingou e eles acharam que a melhor atitude poss[ivel era descer dos carros e atirar bombas. DENTRO DA PIZZARIA GUANABARA. Foi uma merda.

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Rodrigo:

Como descrever a sensação de estar no meio de uma multidão sendo dispersa à moda bélica? 
Primeiramente vale dizer que a multidão, obviamente inflamada, não cometia nenhum crime, violência ou delito. 
Declaravam revoltas contra as faltas de respeito que assola o país desde antes de ser um “país”. Vem da Europa, desembarcada nas caravelas que dizimaram a população nativa quase à extinção para depois provocar o maior êxodo forçado da história da humanidade nos porões dos navios negreiros.
Confesso que até determinado momento achei que a manifestação estava quase pueril na Presidente Vargas. Não pude chegar até a prefeitura pois a massa já estava retornando. Achei estranho mas estava em paz, com cartazes bem humorados e maiores e menores comprometimentos com alguma questão.
Dava pra ver que lá atrás, na ponta da manifestação próxima à prefeitura, a polícia estava desenrolando alguma estratégia vil. Não afetou a tranquilidade mas por algum motivo que não pude saber todos estavam voltando em direção à Candelária.
Voltamos tranquilos. Alguns entreveros mas todos dentro de alguma normalidade dentro do contexto que se apresentava.
Na esquina da Vargas com a Passos o terror começou com o gás. Entendi o que ocorria. A força repressora não estava dispersando a multidão. Estava conduzindo para um lugar mais propício para os atos brutais.
Na Candelária a multidão se espalhou pela Rio Branco e pela Primeiro de Março. Quando a massa se instalou na Rio Branco a coisa ficou muito quente. O caveirão veio na contramão, no meio do povo, com os samangos de arma para fora. Pararam ao final da Rio Branco e voltaram com tudo. Tiros, bombas, pânico e terror. Caveirão, motos e carros.
Aí começou a caçada. Corri do meio da Rio Branco até o Aterro. Muita confusão. A multidão não estava organizada para resistência. Tentava sair dali. Cada rua que passávamos víamos pessoas correndo de alguma guarnição que atacava.
Terror de Estado. Pânico na população.
Vim para casa dividido entre a vontade de partir para cima e o medo de ser posto para baixo.
Acredito que a discussão acerca de vandalismo ficou obsoleta. As cartas estão na mesa.
O Rio está deflagrado. Será que as tropas vem de Juiz de Fora novamente? Ou ao invés de usar o exército vão utilizar o treinamento que o BOPE adquiriu nas áreas que receberam UPP?
Será que vamos parar? Acho melhor não...

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Outro que nao sei a autoria:

"Relato de uma amiga

"O AMOR ACABOU. ISSO AQUI VAI VIRAR UM INFERNO." - Foi o que as pessoas começaram a gritar quando a polícia começou a jogar gás lacrimogênio na altura da Cidade Nova. Fomos todos empurrados no sentido contrário da Candelária, mas com muitos apelos as pessoas mantiveram a calma e não correram.
Com muito esforço conseguimos pegar a rua dos bombeiros e sair da parte mais tensa da manifestação. Fomos pra Lapa, depois de andar muito. Bem longe, encontrei a ******** e a ******, e fomos comer um cachorro quente nos Arcos antes de ir pra casa.
Foi quando passou pelos Arcos a cavalaria do BOPE e vários camburões. As pessoas em volta não estavam manifestando, muitos tinham vindo do protesto mas agora estavam comendo e sentadas nos bares. Então alguém (vândalo, infiltrado ou whatever) soltou uma bomba e a polícia começou a revidar. até então a gente não imaginava a que ponto isso ia chegar, apenas nos afastamos um pouco, quando a polícia começou a avançar e as pessoas a correr. Eram dezenas, um monte de gente que não fez NADA sendo pressionada a adentrar a Mem de Sá e a Riachuelo. Em vez de entrar em desespero, ficamos todos indignados, lógico. Começamos a gritar "O povo unido jamais será vencido" - e paramos de correr. Mas a polícia continuou vindo atrás, e a fúria coletiva levava as pessoas a gritar cada vez mais alto: "NÃO VAI TER COPA!! NÃO VAI TER COPA!!", enquanto continuávamos a avançar rua adentro.
Claro que o BOPE não deixou por isso mesmo. Nos encurralaram em uma das ruas que sobem o Morro de Santa Teresa, foi quando o gás veio. Todo mundo correndo morro acima, agora o desespero nos tomava enquanto as balas de borracha riscavam de vermelho de um lado pro outro. Tentei ficar perto da ***** mas não deu, tropecei numas motos paradas, uns caras quase passaram por cima de mim e eu fui atrás de umas pessoas que tentavam se refugiar num bar. Olhos ardendo, a fumaça subindo, sons de copos caindo e quebrando no chão do bar. A ***** apareceu e depois encontramos a **** . Não dava pra descer mais, então subimos.
Tinha um carro da PM parado lá em cima, pegamos outra rua e muita gente vinha atrás, tentando ir pra ALGUM LUGAR. A descida que encontramos vinha das escadarias da Lapa, uma garota vinha subindo com o namorado, desnorteada e gritando que a polícia estava louca, jogou uma bomba de gás dentro do bar que ela estava e ela fugiu desesperada. não dava pra descer, eles cercaram o outro lado, também. Helicópteros nos sobrevoavam. GUERRA. E por quê? O que nós fizemos?
Continuamos subindo o morro, não tinha pra onde ir. Não sabíamos o que fazer. Até que encontramos uma moça em uma das ruas, falamos com ela e ela disse que ia descer de carro com o marido pra buscar a filha, e nos ofereceu carona. Foi a nossa salvação, foi Deus que colocou aquela mulher ali.
Nós andamos até o aterro e tentamos pegar um táxi, mas todos se recusavam a ir na direção da nossa casa (no *****). Fomos andando mesmo, cheias de medo, mas conseguimos chegar bem em casa.

Eu estou tão, mas TÃO PUTA, que você não fazem ideia. É essa polícia que o nosso bolso paga? É essa a resposta das autoridades e políticos às nossas reivindicações? Mais pessoas ficaram ilhadas no IFCS, na faculdade de Direito, e outras conseguiram abrigo, por sorte. Não sei se todos os meus amigos estão bem. Foi absurdo, completamente ABSURDA a atitude da polícia.

O GIGANTE ACORDOU. O ESPÍRITO DE REVOLTA SÓ ESTÁ CRESCENDO. ISSO NÃO ACABOU. NOSSA LUTA SÓ ACABA NO ANO QUE VEM NAS URNAS!

E tudo que eu consigo pensar agora é "CsF não importa mais, EU PRECISO ESTAR AQUI ANO QUE VEM."

NÃO PAREM! NÃO DESISTAM! AMANHÃ VAI SER MAIOR!

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Moyses:


Bandidos pagos e ação de extermínio da pm.

Quando cheguei na manifestação de hj, já fiquei apavorado ao presenciar uma violência louca. Várias pessoas gritando ali na Candelária, "fora partidos". Até aí, considero que é uma ação que vem com a insatisfação da população contra os partidos safados.
Só que vi gente com megafone gritando essas coisas. gente bem com cara de famélico, que não é bem gente com uma puta articulação política para discordar de partidos.
E aí veio a primeira cena de terror.
Uma massa, de gente que visivelmente foi pra lá para causar confusão, foi pra cima e baixaram a porrada em várias pessoas com bandeiras da CUT. Mulheres, pessoas idosas, qq um que estivesse perto dessa turma (que foi em todas as passeatas anteriores) era agredido. Não era uma agressão verbal, era porrada.
Isso foi ali na frente da agência do Banco do Brasil.

Avisei a várias pessoas sobre o que tinha acontecido, e vi que grupos estavam se formando de forma calculada para bater nas "pessoas de partidos".
Fui caminhando com um amigo, o Marcos Pereira Bezerra. Marcão é esperto, disse na hora que tb tinha visto vários grupos estranhos.

Começamos a andar na direção da Zona Norte. E encontramos um grupo enorme de gente de ongs, escolas, d.a.s das universidades, sindicatos.
Enfim, a esquerda. Muitas caras conhecidas, tudo tranquilo.
Muita gente passava e cantava (tinha um carro de som) e tinha gente tb que vaiava. Até aí, tudo bem.
Mas chegou uma hora onde uma galera (do mesmo que tinha atacado a CUT) que começou a provocar. Xingar, chamar pra porrada e tals.

Andamos dois quarteirões bem tensos. E aí fudeu.
Gente com megafone, paus, pedras e bombas.

A porrada comeu, sabe 40 contra 100 ou mais? O grupo atacava sem distinção, idosos, mulheres (de escola, tipo Pedro segundo), universitários... toda a turma da esquerdas organizadas.
Muita, muita porrada. A formação que defendia as esquerdas levava, dava e tinha uma turma do deixa disso mas teve um hora na qual a galera se dispersou. Muitas, muitas bombas em cima da gente.
Bomba mesmo, com fogo e fragmentos. A galera começava a cair, ferida e era arrebentada por 5, 10 ou mais. Saí na porrada com vários, uma coisa que nem dá para descrever.

Sem contar que vi dois deles ligando no celular pedindo que mais "colegas" chegassem na área pra bater mais.
Isso até encontrar 3 pms em motos, os marginais afinaram. E um deles me disse que a pm "tinha o deles".

Para que vcs tenham uma ideia, a turma dispersou até depois do Elevado. e com gente correndo atrás deles.
Para que vcs tenham uma ideia, vi gente da organização correndo e dizendo "foge Moyses, pq eles vão invadir a prefeitura já".
Corri para avisar quem ainda estava de bobeira na frente do piranhão, e o resto vcs sabem.
Só que não foi um grupo de "manifestantes radicais", "anarquistas" ou qq coisa parecida. Foi calculado, marcado e bem organizado.
Voltei com vários hematomas. Mas graças à "roda" estou bem.
E ainda tem esse massacre rolando no Centro, por conta da ferocidade da pm. Gente sendo agredida nos bares, nas universidades e nas ruas.
Uma noite trágica para a nossa cidade.
Quem é que está interessado na dispersão das passeatas?
Quem é que está interessado na criminalização das esquerdas? Pq isso só apareceu agora, nessa semana?
Pq a pm não foi pra cima dos bandidos, ficou quieta em várias ocasiões?
E pq a pm persegue de forma implacável a organização pacífica do evento de hj e está invadindo hospitais, bares e universidades para arrebentar com todo mundo?

Sem teorias conspiratórias. Mas só pode ser coisa dos setores do poder. Ou seja, a direita.
Essa história que essa polarização acabou, nada. Aí é que vc vê como é que a direita existe e tem um poder autoritário tinindo.


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Marcelo

Acabei de chegar em casa, ligar a tv e ler os jornais online. Como absolutamente TUDO que está sendo reportado parece tão distante da realidade vou tentar explicar um pouco do que foi a passeta hoje pra quem não foi.

Estava uma festa, todos andando em paz na direção da prefeitura. Eu estava com a Fernanda, na sua primeira manifestação. Durante todo o trajeto, não houve atos de vandalismo. A partir de um ponto, todos pararam. Viu-se a fumaça das bombas. As pessoas começaram a voltar. Devagar. Caminhando de volta para a Candelaria. Mais bombas. As pessoas se aglomeravam perigosamente, tentanto ir embora.

Ainda não havia atos de vandalismo. Mesmo disperçada a manifestação legitima, garantida na constituição deste pais, a PMRJ resolveu seguir os cidadãos que neste momento só pensavam em ir embora dali. As pessoas tentavam acalmar umas às outras para evitar um corre corre que transformaria a situação em uma tragedia. A PM alcançou a multidão que tentava sair dali e jogou mais bombas e mais gás. Algumas pessoas começaram a reagir e a quebrar as coisas.

Nesta hora, eu e a Fernanda nos adiantamos um pouco mais e tentamos sair por uma rua lateral. Chegando lá, e digo novamente, não havia vandalismo naquele local, a policia tinha fechado as ruas transversais e jogava gas lacrimogenio em quem queria sair. Na transversal seguinte, a mesma coisa. Isso não era perto da prefeitura, isso não era perto de nenhum tipo de vandalismo.

O objetivo da policia não foi em nenhum momento dispersar tumulto. A manifestação ja tinha terminado. O objetivo dessa operação de guerra foi vingar o protesto na Alerj. Foi botar medo na população ao atacar não os radicais mas as familias que estavam do meio pro final da passeata. A PM jogou bomba até no onibus que estava saindo do centro, levando pessoas que só queriam sair dali. Jogaram bomba no Souza Aguiar.

Ficou claro que o Estado vê o povo como um inimigo. E eu quero que fique muito claro que o que está aparecendo nas TVs e nos jornais não condiz com a realidade do que ocorreu ali. A policia não reagiu a nada. A policia atacou a manifestação. Atacou a mim, atacou a Fernanda. Atacou todos os cidadãos de bem que sairam as ruas nessa noite.


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NOTA DO PSTU-RJ - 20/6/2013
Ato reúne mais de 300 mil pessoas, apesar da redução das tarifas por Paes e Cabral, mostrando que os setores mobilizados reivindicam mais do que os R$0,20 de diminuição.

De tanto insuflar a massa, a burguesia e os grandes meios de comunicação conseguiram seu intento: dividiram a manifestação e vão terminar por descreditar a luta justa da classe trabalhadora e juventude!

Por volta das 15:30, os militantes dos movimentos sociais, entidades estudantis e partidos de esquerda se reuniram no Largo de São Francisco, para formar uma coluna unificada e participar do ato de forma pacífica, com suas bandeiras e faixas, mostrando que os verdadeiros inimigos são os governos Cabral, Paes e Dilma.

Seguiram pela rua Uruguaiana e, ao virar na Av. Presidente Vargas, diversas pessoas dos assim chamados "sem-partido" começaram a vaiar e a hostilizar a coluna, mais ainda sem nenhum confronto.

Pouco depois, cerca de 500 metros dali, a questão tornou-se bem mais séria. Na retaguarda da coluna, formou-se um grande grupo de provocadores, formado principalmente por homens, a maioria mascarados e sem cartazes. A partir desse momento, a apreensão e o temor de agressão por parte de provocadores se instalou na coluna.

As provocações foram aumentando, apesar do esforço de diversos ativistas, que tentavam acalmar os ânimos e impedir os provocadores de iniciar alguma agressão. Quando a coluna aproximou-se da Central do Brasil, aqueles que tentavam apaziguar não aguentaram a pressão dos provocadores e terminaram por retirar-se, o que piorou a situação e levou a alguns conflitos físicos.

Na altura da Praça XI, o conflito se generalizou, quando o grupo de provocadores conseguiu romper o bloqueio que foi feito na retaguarda da coluna. A partir desse momento, houveram diversas brigas, com vários militantes agredidos e diversos feridos, alguns com gravidade. Fomos barbaramente agredidos, levando mais de 15 pessoas a hospitais próximos. Houve lançamento de bombas, pedras e os mastros das bandeiras que foram roubadas pelo grupo de agressores.

Nesse momento, percebendo que poderia haver um conflito maior, a esquerda como um todo cerrou fileiras. Militantes do PSTU, PCB, PSOL, PCR e até mesmo do PT e PC do B uniram-se em defesa dos movimentos sociais, entidades estudantis e sindicais e das pessoas que vieram ao ato portando suas bandeiras vermelhas e faixas de protesto.

Após um novo confronto generalizado, o ato dispersou-se completamente ao chegar na Prefeitura, dado o clima de tensão e medo que tomou conta das pessoas. Afortunadamente, neste momento, mesmo havendo correria, a coisa se acalmou um pouco, pois os provocadores dirigiram-se à prefeitura.

O PSTU Rio de Janeiro afirma publicamente que nenhuma agressão partiu dos militantes da esquerda, mas sim veio dos provocadores, que só podemos entender que não pertenciam aos que vieram protestar pacificamente, mas a grupos fascistas e a policiais inflitrados no ato.

Afirmamos também que sempre buscamos a unidade daqueles que lutam, estando presentes nas plenárias e fóruns de preparação dos atos, que sempre respeitamos a todos os setores honestos e combativos, presentes na manifestação, e que não recuaremos perante nenhuma agressão fascista, policial ou de marginais infiltrados.

Da redação do Rio de Janeiro

Compilação de Videos - Protestos Rio de Janeiro 20/06/2013

Vou continuar acrescentando videos ao longo do dia













http://oglobo.globo.com/videos/t/todos-os-videos/v/batalha-campal-em-frente-a-prefeitura-do-rio-parte-ii/2646487/

Uma compilação

https://www.youtube.com/watch?v=3NLIZZ0MvjQ&list=PLplxrkSJzrJINgrunOS3Kfx9KqeUTPn5e

Relatos de uma guerra

Para quem não sabe ou está entrando aqui depois de algum tempo e já esqueceu, ontem foi o dia em que a policia atirou contra e prendeu indiscriminadamente a população do Rio durante a manifestação inicialmente Pacífica. Passei a noite lendo relatos de amigos e agora publico na íntegra os primeiros.

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Querid@s Amig@s,


Ainda estou processando a barbárie que foi ontem. Para mim, que não viveu a repressão da ditadura de perto, que mesmo nos meus anos de movimento estudantil jamais se sentiu correndo risco de vida, ontem foi um dia de tristeza, em que pude, ainda que guardando as devidas proporções, sentir o que é ter a voz calada e o seu direito democrático de se manifestar, de ir e vir, cerceado por uma brutalidade injustificável.

Estive na manifestação até chegar às imediações da prefeitura, ali na Leopoldina. O clima era de festa. Havia muitas bandeiras diferentes. As pessoas saiam para celebrar a vitória conquistada nos últimos dias, cientes de que a luta apenas está começando. Em certo sentido, me preocupava ver que um nacionalismo fascista brotava nos cânticos, nas caras pintadas, nos hinos cantados. Viam-se cartazes com capas da Veja, mas também se via cartazes com bandeiras efetivas de luta, como a melhoria do transporte público, educação e saúde.

Meus sentimentos estavam um pouco desencontrados, porque a sensação que dava era que, de repente, ali era palco de uma diversidade de pautas e desejos que refletia a falta de liderança política e de foco das mobilizações que foram crescendo nos últimos dias.

Ao chegar ali, a quantidade de pessoas era tal que eu resolvi ir caminhando em direção à minha casa. Eram 19:30. Caminhei, cheguei até a Lapa. Na Francisco Moratori resolvemos, eu e o Guilherme Fogaca, parar para tomar uma cerveja e conversar sobre o que tínhamos visto e ouvido. Nossas impressões e reflexões para os próximos dias. Pouco a pouco outros companheiros de luta foram chegando também. Amigos de militância do movimento estudantil. O clima era de reflexão e descontração. Às 20:45 comecei a receber ligações e mensagens no celular de amigos, que preocupados, contavam que a prefeitura tinha se transformado em um campo de guerra e que as coisas estavam muito, mas muito tensas. Já perto de casa, na subida de Santa, lhes tranquilizava dizendo que tudo estava bem.

É claro, que a essa altura, não entendi exatamente porque passavam pela Riachuelo carros e carros da tropa de choque, cavalaria da PM, muitas, várias, incontáveis, em direção à Glória. Era estranho pensar que, se a confusão estava lá na prefeitura, porque aquele contingente de policias se dirigia para o outro lado. Não tardou muito para que eu tivesse a resposta.

Por volta das 22hs vemos uma avalanche de pessoas correndo em direção ao bar em que estávamos. Pessoas pediam calma e mesmo assim a galera continuava correndo desesperada. De repente, chega a tropa de choque e começa a jogar bombas para dentro da rua. Todos nós que estávamos ali, sem entender absolutamente nada, entramos desesperados para dentro do bar que fechou as suas portas com todos lá dentro. Eu nunca tinha tomado uma bomba de gás lacrimogêneo na vida. E, mesmo ela tendo sido jogada a uma distancia razoável de onde estávamos, os seus efeitos não tardaram a contaminar a todos. Gente chorando, passando mal. Medo!

Saíamos do bar para ver o que estava acontecendo e a cena era realmente de estado de exceção. Pessoas sendo perseguidas pela Riachuelo, pela Lapa inteira. Estávamos sendo caçados, não importando se tínhamos às mãos para o alto, se não resistíamos a abordagem truculenta da policia.

Entendi que aquilo ia tomar proporções piores e resolvi ir pra casa, a pé, subindo Santa Teresa. Quando cheguei na Joaquim Murtinho, para minha surpresa, havia um carro da PM fechando a passagem para as pessoas que, desesperadas, procuravam refugio. Ninguém podia passar. Queriam deixar todo mundo ali, para serem caçados como bichos. Fui abordada e tive que dar meu nome e endereço, dizer que era moradora e, só depois disso, pude passar na barreira policial montada e ir para minha casa.
No meio disso tudo, pessoas revoltadas com a ação da policia e inflamadas pelo discurso da grande mídia que tem tentado todos os dias pautar as manifestações na direção de golpe contra o governo do PT que, sim, tem problemas, como todos os governos tiveram, mas está ali legitimamente e democraticamente pela vontade do povo. Esse parêntese é importante ser feito, voltavam já encapuzadas chamando as pessoas para a “luta”, para o “confronto”.

- Vem povo brasileiro, vamos pra luta.

Um arrepio percorreu todo o meu corpo ao ouvir aquilo. Não compreendia como, de repente, um momento histórico de mobilização social estava se transformando em uma guerra nacionalista vazia e sem propósito algum.
Hoje, a capa do O Globo tenta desesperadamente costurar a mudança política que tando a direita deseja. Uma direita que nem como oposição consegue se organizar, que nas urnas não conseguiu, nesses quase 12 anos de governo do PT, ganhar legitimamente nas urnas. Temos e, sei que para muitos isso pode não fazer sentido ou pode ser que considerem ir contra todas as mobilizações que foram feitas, desesperadamente dizer que estamos aqui exigindo direitos e não mudança de governo via golpe. Se está criando o pretexto que a direita precisa para criar um estado de exceção que permita revivermos passagens das nossas história que sim, não podem ser esquecidas, porém, não podem se repetir nunca mais.

Tá na hora da gente sair às ruas para apoiar a democracia do país e dizer que as bandeiras são muitas, mas todos nós defendemos a democracia conseguida depois de anos de repressão e luta. Não vamos tolerar ser massa de manobra, não vamos tolerar que essa mobilização social tão bonita seja a justificativa para que fascistas subam novamente ao poder.


--Bruna--

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Vamos lá... vamos começar com a prática da polícia na Pres. Vargas hoje. O helicóptero da polícia foi da prefeitura até a candelária apagando poste a poste de luz. Iluminavam as fotocélulas dos postes com aquela luz forte de perseguição. Ao apagar a Pres. Vargas inteira propositalmente (não dá pra sem querer apagar a Pres. Vargas inteira) se deu o ataque da polícia contra os manifestantes no breu. A ação da tropa de choque não teve a intenção de dispersar o movimento e sim de encurralar as pessoas e fazê-las se arrepender de ter saído para as ruas. Ao final, não havia nenhuma saída desbloqueada, a cada rua que entrávamos, já haviam manifestantes correndo de volta e gritando: "o choque está vindo por lá" e respondíamos "o choque também está vindo por lá" então andávamos mais rápido fugindo por onde conseguíamos passar antes do choque (que estava sempre chegando). O clima estava muito tenso. Finalmente, a multidão foi encurralada na Primeiro de Março. Me vi fugindo de todos os lugares até perceber que não havia para onde fugir. Chegavam pela Primeiro de Março por trás e pela frente, pelas ruelas do centro só se via gás lacrimogêneo e pessoas voltando correndo. Nessa hora, estar com a câmera fez a diferença. Resolvi cruzar as tropas de choque em meio a muito gás, levantando as mãos com a câmera pedindo passagem. Cruzei uns 30 escudos que faziam uma barreira impenetrável com a câmera virada para baixo e a mão virada para cima, pois os poucos que os filmavam eram repreendidos e ameaçados. Nesse momento vi que diante da tropa de choque só fica quem tem muita coragem! Beira a falta de amor próprio. Passei com o rosto muito ardido (a Praça XV era só gás lacrimogêneo, não havia nem um lugar sem gás) os olhos eu quase não conseguia abrir. Eu era um alvo fácil. Não fui atingido. Foi quando pensei, ganhei uma segunda chance de ir embora e não vou desperdiçá-la. Encontrei um táxi livre, entrei e fui. Até o táxi ficou por uns 10 min tentando sair do miolo da confusão. Nessa quinta-feira, a polícia não controlou a manifestação, o que aconteceu foi terrorismo. Quem não estava lá imagine: as ruas completamente escuras, um breu, barulhos muito altos de bombas sem parar, uma atrás da outra, gás para todo lado, tiros incessantes. Foi uma guerra! Hoje a população enfrentou a fúria da polícia, eles agiram com raiva! O procedimento não foi nada técnico, nada racional, foi puramente emocional. Quem são os bandidos dessa história? Que porra de ordem foi dada a polícia para que agissem dessa maneira? Eu imagino... "espera a primeira pedra, aí vocês podem fazer o que sabem muito bem... tocar o terror e começar a guerra!" Só faltou o helicóptero tocar "As Valquírias" de Wagner.

Sobre os manifestantes... ficou muito claro para mim que tinha todo tipo de manifestante nas ruas. A grande maioria foi para reivindicar direitos e levantar cartazes bacanas. Enrolados na bandeira do Brasil, com a cara pintada estavam cheios de vontade de fazer política (o que falta até nos políticos). Tinham também os manifestantes irracionais, estes (que todos viram nas TVs), me pareceu, que eram oriundos de lugares diferentes, mas todos com muita raiva e muita coragem. O intuito principal era depredar tudo que viam. Vidros eram o alvo mais querido. Para eles, nada era mais prazeroso que estilhaçar os vidros ao redor com pedradas e madeiradas. A cada estilhaço era uma comemoração. O fogo no lixo era uma medida automática ao entrar em qualquer rua. Deixavam fogueiras a cada 50 metros percorridos. Gravando tudo, perto de todos estava eu me perguntando, será que vou continuar sem problemas na linha de frente? Como que respondendo a minha pergunta a mim mesmo, se aproxima de mim um cara forte, média de 40 anos, com um pedaço de madeira pontiagudo apontado para mim e falou: "vamos parar de filmar essa porra agora!? vamos parar agora com essa porra, caralho!?". Eu, lógico, mais do que rapidamente saí fora falando "parei, parei". Saí olhando para trás e sempre que olhava via o cara com aquela parada na mão ainda verificando se eu ia parar mesmo. Parti batido para longe daquela frente, pensando: "que porra de cara era esse? que filho da puta, me botou pra correr". Estou até agora sem saber se o cara era um bandido ou um p2. Fato é que o cara tem experiência em botar o terror em alguém. Não me assusto fácil, o recado do cara foi direto. Uma ameaça para ninguém botar defeito. Funcionou direitinho, não consegui filmar o fdp e me senti um covarde, mas continuo vivo e sem ferimentos. Isso foi numa rua perto do sambódromo que dava acesso ao miolo do Estácio. Cerca de 15 minutos depois, eu estava andando numa boa com os manifestantes pela Rua da Carioca, em direção à Av. Rio Branco quando vi a galera abrir um espaço meio correndo, meio andando rápido. Olhei para a rua e lá estavam uns 10 caras, entre eles alguns moleques que aparentavam ter uns 16 anos ou menos e outros maiores de 25 a 35 anos, pelo que me pareceu. Eles andavam quebrando tudo que podiam, derrubando tudo que estava em pé. Os poucos ônibus que passavam devagar pela Rua da Carioca eram acertados por madeirada e pedrada. Parecia o clipe do Justice, "Stress", só que eles estavam sem camisa, alguns descalços. Continuei andando normalmente sem gravar. Ouvi alguém recriminando a depredação dos caras (como vi acontecer durante toda a manifestação) e um deles ma mesma hora voltou gritando: "vai tomar no cú, é vocês que recebem os fdp na favela? nós não tamo roubando vocês! tamo devolvendo o que eles fazem com nós quando sobem a favela" (foi mais ou menos isso) e se juntou novamente com os amigos já quebrando um vidro e comemorando com os outros seus atos. Pensei em gravar, mas novamente, preferi me manter ileso e fingi que nada estava acontecendo. Eu estava com a câmera na mão. Depois dessas duas situações, vi que a democracia tem seus pontos fracos. Por causa de grupos assim a polícia age com violência. O que tira a razão da PM é que ela coloca todo o resto no mesmo saco e manda bala! Fico pensando se é tão difícil assim realizar ações pontuais para evitar que todos paguem o preço. Me parece uma questão de inteligência e preparo. São todos vítimas da falta de educação, mas todos culpados e responsáveis pelos seus atos.

--Marcelo--

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Saímos da manifestação cansados (somos da velha guarda) e paramos num pé sujo na Rua do Riachuelo para descansar e tomar uma cerveja. Tava tudo calmo, não havia aglomeração, movimento, faixas, protestos, nada! De repente a confusão começou sei lá como, fumaça e gás lacrimogêneo, pessoas chorando machucadas, corremos e subimos as escadas para a Rua Paula Matos. Lá embaixo as motos da tropa de choque passavam correndo... o mesmo aconteceu em vários outros pontos nos arredores da manifestação: pessoas que já estava indo embora sendo alvo de bolas de borracha e gás lacrimogêneo. Qual o sentido de tamanha repressão? Isso é uso abusivo de força policial!


--Fatima--

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Pedro Aguiar, 20/6/2013

Devo ser de uma geração privilegiada. Levar a primeira bomba de gás lacrimogêneo na cara aos 31 anos de idade é uma espécie de perda de virgindade tardia. Uma virgindade política, ética, social, acordando para o senso de comunidade que nos faz humanos. Essa virgindade nós perdemos hoje.

Eu estava lá. Era um das centenas de milhares milhão de cariocas que tomaram toda a longa e larga Avenida Presidente Vargas. Com meu irmão e amigos, percorri aqueles quilômetros empunhando uma bandeirinha da Turquia e um cartaz que dizia "Se o busão aumentar, vou de Taksim", em referência à praça em Istambul, onde estive algumas vezes, que sofreu pesada repressão em protestos recentes.

Neles, segundo contavam meus amigos turcos por um aplicativo de chat enquanto eu caminhava na manifestação, quatro pessoas morreram esta semana e gás lacrimogêneo era lançado em larga escala, por helicópteros. Uma amiga enfermeira de um hospital perto da Taksim relatou que vários manifestantes deram entrada com queimaduras na pele. Boatos entre eles dizem que a polícia turca misturou produtos tóxicos na água lançada em jatos contra a multidão. A mídia da Turquia, como se tem dito, está silenciosa sobre esses abusos.

Ao mesmo tempo, helicópteros sobrevoavam a gente na avenida, enquanto chegávamos à Praça Onze, perto da sede administrativa da Prefeitura. Nesse momento, as luzes dos postes se apagaram e helicópteros com holofotes deram rasantes sobre a multidão, tão baixo que dava pra ler nitidamente a identificação da Polícia Militar. O estouro de bombas já era ouvido mais à frente.

A intimidação funcionou. A multidão começou a retroceder. Mesmo com os gritos da militância para não recuar, para não dispersar, a gente ouvia que, se estavam assustando daquele jeito, era porque estavam dispostos a pegar pesado.

De fato, pegaram. Meu pequeno grupo desistiu de alcançar a estação de metrô da Praça Onze e conseguiu cortar caminho pela rua Marquês de Pombal. Essa via curtinha tem apenas duas calçadas: a da direita é o quartel do Batalhão de Choque; a da esquerda, a redação do jornal O Globo. Já num ambiente bem mais calmo, ao lado de outras dezenas, paramos num bar de esquina cuja TV ligada mostrava as manifestações no resto do país. Fogo em Brasília, tumulto em Goiânia, porrada em Salvador e a bomba de gás lacrimogêneo explodiu do meu lado sem aviso prévio.

O Choque tinha virado a esquina de repente.

Corremos. Só que, do lado oposto, outra tropa fechou a rua, também jogando bombas de gás no sentido contrário. Ficamos cercados. A máscara antisséptica, que estava no bolso sem a menor convicção de que precisaria usar, foi útil nessa hora. E o vinagre embevecido nela me ajudou a respirar e conseguir abrir os olhos apenas para enxergar onde pisava. Acompanhamos as outras pessoas da rua, em pânico, até um portão de ferro que eu conhecia muito bem. Anos antes, passei várias vezes por ele ao entrar e sair de meu estágio n'O Globo. E vi como ele era emblemático quando pessoas da manifestação esmurraram-no e tentaram arrombá-lo, implorando por refúgio aos ouvidos indiferentes dos seguranças. Eles protegiam os jornalistas, como eu, que fazem o trabalho da imprensa dentro da redação envidraçada, com isolamento acústico e ar condicionado. O gás e os estouros não chegam nesse ambiente. Ficam só para quem está onde eu estava. Lá dentro, os colegas. Cá fora, os companheiros.

As bombas pararam e um comboio de carros e ambulâncias dos bombeiros percorreu a rua na contramão. Pensei, na hora, que a função do gás tinha sido apenas "limpar" a rua para facilitar a passagem. Não tínhamos feito nada além de estar no caminho. Havia outros meios de se fazer isso? Claro, havia. Mas pra quê, né?

Chorar lágrimas de efeito moral tem todo um outro significado.

Elas são tão reais quanto as lágrimas da emoção de ver os outros cidadãos ainda mobilizados, mesmo depois da revogação do aumento das passagens. Como foi dito desde o início, não era só por 20 centavos. Era a demonstração de força da pressão popular, quando mobilizada, articulada e com propósitos definidos.

Claro que estão bem definidos. Por mais que tente haver sequestro da pauta de reivindicações, tanto à esquerda quanto à direita, os manifestantes têm claro na cabeça o que exigem. É contra a gritante diferença entre os recursos contidos em educação e saúde e as torneiras abertas para obras de estádios e urbanização para futura especulação. É contra É contra ainda o discurso do "vamos baixar a passagem, mas pra isso temos que tirar de outras áreas", ofensivo à inteligência da população. Os partidos que tentam empunhar bandeiras para aparecer em imagens futuras são constrangidos a sair. Os bordões inculcados pela grande mídia são ridicularizados. Quem está na rua não quer impeachment da Dilma, não quer insistir no "mensalão", não quer derrubar a PEC-37. Essas bandeiras não são nossas. É preciso ouvir o que temos a dizer em vez de nos fazer dizer outra coisa.

Esta noite, deixamos de ser virgens politicamente. Já provamos na carne que não era mito a força coletiva dos cidadãos mobilizados. O povo não precisa derrubar o governo; basta saber que pode. A "revolução brasileira" é um fato que nunca houve. As revoluções americana, francesa, russa, chinesa, ajudaram a mudar o mundo e a moldar o caráter dessas sociedades. Nenhum desses países foi mais "inocente" desde seus processos revolucionários. Nós, brasileiros, talvez estejamos hoje saindo da infância do nosso Estado-nação e entrando na turbulenta adolescência. Bom pra nós.


E uma coisa eu posso dizer, de testemunho próprio: vinagre adianta. Muito.


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Acabei de chegar da passeata. A manifestacao foi SUPER tranquila. Cheguei as 16:40 na Cinelandia, andei ate a Candelaria, fiquei la na concentracao, e comecamos a descer a Rio Branco. Nao vi um so problema. Ja mais para perto da Cinelandia, teve um babaca que comecou a pixar um ponto de onibus e foi vaiado pacas. O pessoal estava realmente atento para esses atos, e pediam para os que tivessem subido em pontos de onibus, bancas de jornal ou janelas de predios historicos que descessem. Foi assim ate o final, quando chegamos na Cinelandia. Quando estava indo embora, ouvi rumores de que estava comecando uma confusao na Alerj, e vi imagens de um carro virado, pegando fogo, sem ninguem em volta. Milhares de pessoas se manifestaram em paz por varias horas, sem nenhum incidente. Um par de imbecis faz merda nos 45 minutos do segundo tempo, e eh essa a imagem que a midia mostra? Essa imagem nao representa o que foi a passeata.

--Diogo--

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gritaria de "não violência" na minha rua!
to ouvindo bomba daqui de casa....helicóptero até não poder mais!

--Raquel--

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o BOPE acabou de passar aqui na rua dando tiro nas pessoas
e os caras rindo pra caraleo, como se tivessem jogando counter strike
estamos em guerra...

--Vanessa--

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RIO: Moradores em Laranjeiras relatam excessos da polícia
23h14
Moradores da Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, estão relatando excessos da atuação policial na região. Um porteiro de um prédio de esquina com a Rua Coelho Neto contou que foi atingido perto do olho, por estilhaços de uma bomba de efeito moral, apesar de não haver manifestantes na região. Pessoas estão descendo dos prédios e reclamando da ação da PM.

--Daniel--

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Poderosos cariocas tomaram a cidade! Lindo d+! Porém a cidade tem criminosos espalhados, se são pagos ou não, dão medo. Depois de uma hora de caminhada, bombas esporádicas estouravam nas laterais e pequenos grupos de ladrões rodavam os manifestantes. Eles sabiam do trajeto, pq não podiam colocar algumas viaturas? Depois vejo imagens de ladroes roubando o comércio. Essa violência não é gratuita.

--Priscila--