segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sou uma mulher feminista


Por algum motivo, toda vez que eu me exponho dessa forma, pessoas ao meu redor, amigos até mesmo próximos, se espantam, duvidam, entram em negação. Como se fosse uma coisa impossível que eu, amiga deles, pessoa bacana, seja feminista. É quase como se eles descobrissem, subtamente, que faço parte de um grupo neo-nazista, ou terrorista ou algo assim. Eles gritam: "Você não! Eu não posso ser amigo(a) de uma feminista!" "Você é legal! Apesar de lésbica, não odeia homens. Não, você não tem nada de feminista!"

Ai meus amigos… sou feminista desde criancinha. Quando criancinha eu não sabia. Quando adolescente eu comecei a desconfiar de que eu pensava um pouco diferente da maioria e, de um ano pra cá, agora adulta, finalmente me assumi como feminista. E esse simples fato está mudando drasticamente meu modo de ver o mundo e de interagir com ele.

Meu feminismo na infância


Eu gostava muito de brincar. Brincar de qualquer coisa. Gostava de boneca e de comandos em ação. Gostava de brincadeira de escritório, de subir em árvore, de montar cavalo, de atirar com flechas, do laboratório de química, de lego, de lutar judô, jogar basquete, álbuns de figurinha de carros velozes e da xuxa, de ler muitos livros e de ter opinião. Talvez muita opinião. Minha mãe sempre disse que eu era "do contra". Contra tudo. E continuo sendo, para o bem e para o mau.

O que há de mau em todas essas coisas que eu gostava na infância?
Bom, sinceramente nada, a meu ver.
Mas muitos amiguinhos não concordavam.
Lego já era brinquedo de menino. Nas brincadeiras na vila da minha avó, eu era rejeitada nos times por ser menina. Mesmo que eu fosse melhor que a maioria deles. Ou talvez até por isso. E os adultos achavam que era normal essa discriminação. Tentavam me explicar.
Desde cedo comecei a ouvir que era lésbica - por conta dos temas das minhas leituras e das minhas coleções de figurinhas. Temas masculinos e que não deveriam ser meus. Coisa de homem.

Eu não entendia.
Assim como não entendia porque tanto fuzuê com meu irmão mais novo - que gostava de brincar com minhas bonecas.



 Meu feminismo na adolescência

Um dia eu menstruel. Daí eu fui na farmácia e, sem vergonha nenhuma eu perguntei onde ficavam os absorventes.
Minhas amigas se esconderam atras da pilastra, morrendo de vergonha.

Demorei a decidir que era obrigada a cobrir os seios. Nunca gostei de soutien.

Sempre achei que masturbação era uma coisa normal, tanto para meninos como para meninas.

Ao iniciar minha vida sexual, fui a uma farmácia e, no balcão, pedi camisinhas pra ter na carteira.
Minhas amigas sempre atras da pilastra, escondidas. Morrendo de vergonha.
Eu comprava anticoncepcional e camisinha pra elas. Eu não tinha vergonha.

Quando uma amiga dizia que estava demorando para ir para a cama com um menino - não porque não quisesse ir (tava morrendo de vontade), mas porque achava que ele só queria isso dela - eu respondia: "Das duas uma: ou ele só quer te comer, ou ele te quer e sexo é parte disso. Por que vcs não vão logo pra cama? Se ele não quiser nada depois, você pára de perder tempo com ele".

Eu era diferente. Não aceitava que mulher pudesse ser "fácil" e homem "pegador". Eu não escondia de ninguém que tinha vida sexual, que achava ótimo e que não estava nem aí para a opinião alheia sobre o assunto.

Nunca entendi porque essas coisas eram tabus. Realmente era misterioso pra mim.

Acho que essa abertura, ou mesmo exposição, me ajudou. Nos meus últimos anos de colégio eu não sofria mais bullying.


Agora, uma adulta feminista

O assunto "discriminação" sempre chamou minha atenção. No passado publiquei este post sobre preconceito e discriminação movida, principalmente, pelo preconceito contra a minha sexualidade, mas falando do preconceito em geral. Achei que tinha começado a descobrir o que era discriminação quando me assumi lésbica, ou bissexual. Achei que antes eu nunca tinha sido diminuída ou criticada ou sofrido de nenhuma forma.
Não eu, branca, classe média, estudada em colégio particular.

Ledo engano.
Hoje eu vejo como eu sofria. Ou melhor, como, mesmo sem notar, o machismo sempre fez parte do meu dia a dia.


Somos criadas para acreditar que existem comportamentos normais para mulher diferentes dos comportamentos naturais para homens.
Que existem papéis diferentes para os sexos. Que tudo o que foge do padrão é "anti-convencional".
Nos espantam as mulheres no poder.
Nos espantam as mulheres endinheiradas.
As inteligentes, as capazes, as revolucionárias.
Nos espantam personnages fortes nos filmes, nos livres na televisão.
Nós estamos presos à convensão patrialcal de que mulher é "coisa bonita de ser ver", deve "ser pura", "se guardar", "não deve se expôr".
Nós ainda acreditamos que as mulheres não são capazes de liderar, de construir, de ser ambiciosas ou mesmo de amar sexo.
Vivemos em um mundo onde quase um quartto das mulheres já sofreram algum tipo de abuso sexual.

Pense nisso.
Você, mulher que está lendo isso, sofreu algum abuso sexual?

Eu sofri.
Mas eu NEM ME DEI CONTA de que era abuso sexual.

Quantas vezes alguém passou a mão em você sem que você quisesse?
Quantas noticias temos de homens batendo punheta em transporte público, em cinema no meio da praia?
Quantas vezes um homem te perseguiu na rua. Nao precisou fazer nada. A rua era deserta, você estava sozinha e ele acelerou o passo.
Só isso. Mas ISSO te apavorou e você correu. E você achou que seria estuprada.
Quantas vezes você não quis ficar com um cara e ele disse que você era feia, nojenta, riu de você, te diminuiu?
Quantas vezes você foi agarrada a força numa festa, na boate ou na rua, ou no meio do carnaval?
Quantos puxões de cabelo você levou, entre sua infância (fulaninho te bate pq gosta de você) e sua adultisse (o famoso vem ca minha nega) e te machucaram e todo mundo acha que é assim mesmo mas, por algum motivo, isso não parece fazer sentido?
Quantas vezes te "cantaram" na rua, usando palavras ou gestos que te deixaram envergonhada o resto do dia?
Já ouviu alguma história de médico passando a mão onde não devia?
Você já fez sexo "consentido" com alguém achando que a alternativa era o estupro?
Quantas vezes te deram bebida demais para você "relaxar"?
Quantas piadas machistas você tem que ouvir por dia?
Quantos comerciais que denigrem o sexo femenino você vê por minuto?
Até onde vão os direitos que você tem a respeito do prórprio corpo?
Quantos….

Se você começa a pensar, a violência contra a mulher está em todo o lugar.
Não é só quando um homem bate, estupra e mata que ele a violenta.
Não é só em países islâmicos, que as mulheres têm negados seus direitos mais básicos.

A violência é tanta que nós nem percebemos.
Ela está na escola.
Ela está no hospital, na hora do parto.
Ela está na criação de meninos e meninas.
Ela está no ambiente de trabalho.
Ela está no facebook.
No jornal.
Na TV.

E a gente acha tudo normal.
A gente não vê.


O próximo post vai se chamar "Porque o feminismo é importante" e eu vou falar sobre feminismo, não sobre mim, prometo.

Essa frase foi o título que um amigo meu colocou em um post no facebook. Era um link para um video europeu que deveria ser uma ferramenta para a promoção da carreira cientifica entre as mulheres, mas que foi um tiro no pé.

Segue o video.






segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Terra da Lua Partida

De alguns anos para cá é cada vez mais comum vermos filmes sobre poluição, lixo, aquecimento global e o fim do mundo. Tanto documentários quanto grandes produções de Hollywoody nos alertam para o futuro ao qual nossas ações inconsequentes estão nos levando. São muitos os filmes, muitos os alertas, mas parece que estamos sempre vendo mais do mesmo e, aos poucos, esses alertas começam a perder o impacto. No nosso mundo imediatista, parecem previsões de um futuro que nunca chega, que não existe.

André Rangel e Marcos Negrão realizaram um filme impactante e de rara delicadeza sobre um grupo muito pequeno de pessoas que vive, já no presente e no seu dia a dia, os dilemas do aquecimento global, de que tanto se fala.

No coração do Himaláia, o chefe de uma das últimas tribos nômades da região e seu filho vivem em conflito. O pai quer preservar a tradição, a cultura e a tribo a qualquer custo enquanto seu filho e família querem deixar tudo para trás e se mudar para a cidade.

Ao longo do filme entendemos melhor as razões de um e do outro, o funcionamento daquela tribo, como ela é tocada pela tradição religiosa e como as novas tecnologias estão presentes no seu dia a dia. Enquanto acompanhamos o desenrolar da história, podemos perceber um Himalaia muito diferente daquele que vemos na televisão: um deserto frio e seco em constante e rápida transformação.

Com a belíssima fotografia de Negrão e a edição quase ficcional de Rangel,
A Terra da Lua Partida nos joga no centro da Terra, num lugar frio e distante, para nos levar a uma viagem ao âmago de nós mesmos, da natureza humana e do futuro que estamos construindo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Cabelo demais

Temporariamente no Rio de Janeiro, estou habitando casas de amigos. No momento vivo com 21, amigo das antigas e com quem já morei no passado.

A nossa convivência tem sido ótima, a casa é incrível, o quarto, confortável, e a cozinha perfeita para quem gosta de cozinhar. O único problema do apartamento é FDI, a Faxineira Dos Infernos.

FDI é ótima faxineira. Perfeccionista, eficiente e pontual. Por isso, duas vezes por mês, limpa a casa de 21 e é também faxineira de seus pais.
Porém FDI é crente. Enquanto eu, meus amigos, além de dormir com uma menina e acordar tarde, eu, eu tenho muito cabelo. Grandes desvios descritos na Bíblia de FDI.

Antes de mim e D.Mari nos mudarmos pro apartamento, 21 nos alertou sobre a faxineira. Disse para termos paciência. No dia anterior da primeira visita dela à casa, eu havia deixado louça na pia e um recado ao amigo avisando que só não lavara porque sabia da faxina no dia seguinte.

21 queimou o recado.

Depois de uma madrugada de trabalho, acordamos às 14 horas. FDI nos avalia dos pés a cabeça. D.Mari dá bom dia.
FDI responde: Boa tarde.
Dá as costas e vai embora.

Depois de outra virada de noite acordo com FDI falando no telefone aos berros, no meio do corredor. Peço por favor para falar baixo. Mas já eram 10h da manhã (imaginem vocês) de sábado e não sei se ela achou que eu tinha direito a silêncio.
Baixou o tom de voz. Mas não limpou meu quarto, quando saí.

Este sábado foi novamente dia de faxina. Desta vez acordamos cedo. Mari levantou antes e, às 10h da manhã, já estava pronta para sair. FDI perguntou: Você está indo trabalhar? Mari respondeu que sim. FDI, em um tom completamente diferente, disse, pela primeira vez: "Então tenha um ótimo dia." acrescentando: "E vá com Deus."

Eu, como a grande vagabunda, lésbica e aproveitadora de amigos que sou, levantei meio dia. 21 também havia acabado de acordar (FDI disse à D.Mari - às 9:30h – que era bom que ele levantasse logo porque ela não ia ficar lá esperando pra limpar o quartinho dele). Fiz um café pra nós e batemos um papo rápido sobre a minha saída do apartamento para a casa da próxima amiga. FDI acompanhou a conversa com um sorriso enorme no rosto.

FDI esperou 21 se ausentar por um minuto para ter uma conversa séria comigo:

- Você tem muito cabelo, não é?

- Tenho sim.

- É realmente MUITO cabelo.

- Eu sei.

- E ele cai muito, não é?

- Cai sim.

- Pela casa inteira.

- Pois é. Eu sempre varro, mas sempre tem.

- Sempre. Na casa inteira. INTEIRINHA.

- Eu sei. A gente perde muito cabelo.

- Não. Você perde. A outra tem cabelo curto (a outra acorda cedo para trabalhar LOGO não perde cabelo).

- É verdade. Me ter em uma casa é a mesma coisa que ter um cachorro peludo (risos interiores).

- É verdade. É a MESMA coisa.

(…)

Silêncio.
O que responder a isso?
Decidi terminar o diálogo.


- A senhora me desculpa?

- Tá bom.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O maravilhoso mundo das máquinas

Este texto foi resgatado de um blog antigo meu.
Achei-o por acaso e senti necessidade de dividi-lo com algum leitor que apareça por essas bandas.

Aí vai:

O maravilhoso mundo das máquinas

FAQ, ou Frequently Asked Questions (Perguntas Mais Freqüentes) é o jeito mais odioso de se dizer para alguém: olha só, não vou perder meu tempo com você. Certamente o que você quer saber está em uma das opções abaixo. Se não estiver, é porque você não sabe qual é a sua pergunta. É mais ou menos a mesma coisa que aquelas operadoras eletrônicas de telemarkiting. “Boa tarde. Você ligou para o serviço de atendimento ao cliente. Se deseja dar uma sugestão, aperte 1. Se deseja fazer uma reclamação, aperte 2. Se deseja trocar um produto, aperte 5. Se deseja obter a segunda via de pagamento, digite 9.”

A primeira coisa que não dá para entender é a lógica por trás dos números que ela diz. Por que “1”, “2” e depois “5” e “9”? Mas tudo bem. Não vamos questionar isso. Normalmente se você não quer nenhuma dessas opções, como por exemplo, se deseja tirar uma dúvida (o que deveria ser algo perfeitamente normal num SAC – Serviço de atendimento ao cliente), foda-se! (Aliás nada para dificultar mais a vida do cliente que um SAC). Então a única coisa a fazer é pressionar um daqueles números e ver se consegue falar com o atendente. Pois bem. Aperte “1”, por exemplo.

Robô: Aguarde um momento.

Entra uma músiquinha chata com uma daquelas gravações em que uma paulista explica todos os maravilhosos serviços que a empresa presta a você, cliente. Depois de um pouco a musiquinha pára. Você fica na expectativa. Ok, alguém vai atender do outro lado e vc vai poder perguntar para aquela pessoa porque o produto que você comprou não chegou ainda na sua casa. Então aparece novamente a gravação.

Robô: Por favor, grave sua mensagem depois do bip... Pííííí!

Que merda! Gravação. Você não fala nada e a ligação cai. Você liga de novo e, selecionando a tecla “2” o problema é o mesmo. Ok, vc pensa, vamos tentar a opção 5.

Meu caro amigo, se você já passou por isso suficientes vezes sabe que ele não irão te atender nunca. A não ser que, claro, você não tenha pago algo que eles esperem que pague. Porque aí é interesse deles atender bem a você, cliente especial, que entrou em contato com o maravilhoso SAC deles. Então, se você é esperto, no sentido brasileiro de ser esperto, você não pensa duas vezes. Ligou para o SAC e atendeu uma gravação, digite o número de cobrança que eles vão te atender. É certo.

Claro, não sem antes torturar você com aquela maldita musiquinha.
Afinal, se você fosse um cliente amigo mesmo, daqueles que valeà pena agradar, daqueles que a gente gosta mesmo de atender e até serve um cafezinho recém-passado, se você é um desses clientes, você não estaria incomodando a galera que tão esforçadamente trabalha no SAC. Você teria guardado bonitinho sua guia até o dia de pagar e teria pago as suas contas direitinho, no dia certo, não é mesmo? Mas você não é tão bom cliente assim. Perdeu a conta. Deixou de pagar. Quer renegociar... ah... vai ficar um tempo esperando aí, com a orelha quente no telefone.

Bom, eles bem que gostariam de dizer isso pra você, mas não podem. Então eles avisam que você terá que aguardar um momento, pois todos os atendentes estão ocupados. E lá vem a maldita musiquinha e aquela voz paulista irritante dizendo coisas maravilhosas...

PAULISTA: Aguarde um momento, sua ligação já será transferida... Boa tarde! Nós temos o imenso prazer de atendê-lo. Obrigada por escolher a empresa Tal. A empresa Tal se preocupa com seus clientes. Só a empresa Tal oferece o exclusivo o plano de serviços tal, com que o cliente pode contar 24 horas por dia. Nós temos toda uma equipe treinada para te atender melhor. Se você ainda não é cliente Tal, será um imenso prazer recebê-lo em uma de nossas lojas para conversar sobre o plano Tal. Se você já é cliente Tal, aguarde apenas um momento. O cliente Tal é o nosso maior...

De repente a gravação para. Você fica feliz. É agora. Vou poder esclarecer minha dúvida.
O telefone toca. Alguém do outro lado atende.

VOCÊ: Alô???

E a musiquinha volta...

PAULISTA: (...) com seus clientes. Só a empresa Tal oferece o exclusivo o plano de serviços Tal, com que o cliente pode contar 24 horas por dia. Nós temos toda uma equipe treinada para te atender melhor. Se você ainda não é cliente Tal, será um imenso prazer recebê-lo em uma de nossas lojas para conversar sobre o plano Tal. Se você já é cliente Tal, aguarde apenas um momento. O cliente Tal é o nosso maior bem. Aguarde apenas mais alguns instantes, você já será atendido...

Silêncio.
Volta a musiquinha. Agora do começo, vamos lá!

PAULISTA: Aguarde um momento, sua ligação já será transferida... Boa tarde! Nós temos o imenso prazer de atendê-lo. Obrigada por escolher a empresa Tal. A empresa Tal se preocupa com seus clientes. Só a empresa Tal oferece o exclusivo o plano de serviços tal, com que o cliente pode contar 24 horas...

Som de chamada. Dessa vez você não se empolga tanto, afinal sabe que pode ser que seja apenas um alarme falso, mas em vez disso...

ATENDENTE: Boa tarde Cliente Tal, atendente Legisneide falando. Em que posso ajudá-lo?

VOCÊ: Boa tarde. Eu gostaria de saber por que o produto Tal que eu comprei há 15 dias atrás não chegou aqui ainda...

ATENDENTE: Só um momento, por favor...

E lá vem a maldita musiquinha de novo. Se você der sorte, a ligação não vai cair nesse momento e você será transferido para o setor onde poderá fazer sua pergunta, se não der sorte...

ATENDENTE2 (que tem a mesma voz, mas vc não tem certeza se é o mesmo ou não): Boa tarde Cliente Tal, atendente Edislene falando. Em que posso ajudá-lo?

VOCÊ: Boa tarde. Eu gostaria de saber por que o produto Tal que eu comprei há 15 dias atrás não chegou aqui ainda...

ATENDENTE2: Pois não, qual o número do código do produto?

Claro que você não sabe. E claro que sem isso você vai ter verdadeiros problemas para ser atendido, então a atendente decide torturar você um pouco mais.

ATENDENTE2: Por favor, seu nome completo, CPF, Identidade, Cidade, Estado, estado civil e descrição do produto, por favor?

Você responde.

ATENDENTE2: Qual sua data de nascimento, por favor?

Você responde.

ATENDENTE2: Em que dia foi efetuada a compra, por favor?

Você responde.

ATENDENTE2: Só um minuto.

Volta a maldita musiquinha. Depois de uns 3 minutos, quando você já pensava em desistir (afinal, o que são 79 reais hoje em dia?), volta a atendente.

ATENDENTE2: Só mais um momento, por favor.

E vem a musiquinha. Você já não sabe mais o que fazer. Começa a xingar. Eu imagino que a atendente possa ouvir o que você diz. Deve se divertir do outro lado. Deve colocar em viva voz para que os outros possam ouvir também.

ATENDENTE2: Obrigado pela espera, senhora. Infelizmente pelos poucos dados que a senhora pode fornecer, não fui capaz de localizar o produto.

VOCÊ: Como não? Por que então me fez todas aquelas perguntas? Por que me fez esperar? Por quer não me disse logo que não poderia me ajudar?

ATENDENTE2: Sinto muito, senhora. Algo mais?

VOCÊ: Eu não fiquei este tempo todo aqui pendurada para não ser atendida. Por favor chame o seu superior.

ATENDENTE2: Desculpe senhora, mas ele está em outra ligação no momento. A senhora deseja ligar mais tarde?

VOCÊ: Não, eu quero falar com ele agora!

ATENDENTE2: Será que eu não posso ajudá-la?

VOCÊ: Você mesmo disse que não poderia me ajudar. Quero alguém que possa.

ATENDENTE2: Sinto muito senhora, mas ele também não poderá dar a informação que deseja se a senhora não tiver em mãos o código do produto.

VOCÊ: Então me coloque na linha com o superior dele!

ATENDENTE2: Senhora, eu não posso fazer isso. Algo mais?

Ok. Você jurou que estava falando com uma pessoa. Que tinha um ser humano do outro lado da linha. Ledo engano, caro leitor. Do outro lado tem um ser programado para te encher o saco.

Se você quisesse quitar uma dívida, aí tudo bem, eles seriam obrigados a te atender, mas a tua situação não tem nada de interessante para eles, então...

ATENDENTE2: Senhora?

VOCÊ: Olha só, você está me impedindo de falar com seu superior. Vou fazer uma queixa ao PROCON. Qual é o seu nome completo?

ATENDENTE2: Senhora, sinto muito, mas eu não posso lhe dar essa informação, senhora.

VOCÊ: Eu quero falar com seu superior!

ATENDENTE2: A senhora poderia estar enviando um email para nós com sua dúvida que ela será encaminhado ao setor que melhor lhe atender.

VOCÊ: E que email é esse?

ATENDENTE2: A senhora deve estar entrando no site da empresa Tal para verificar essa informação, senhora.

VOCÊ: Por que você não me diz qual é a porra do email???

ATENDENTE2: Eu não possuo essa informação senhora. E a senhora bem que poderia ser mais educada comigo.

Caralho!
COMO ASSIM!!!???!!!

VOCÊ: Como assim ser mais educada??? Eu EXIJO falar com seu superior ou irei até o fim do mundo processar essa maldita empresa.

ATENDENTE2: Só um momento senhora.

E lá vem a musiquinha.
Sim, É o inferno. Tudo o que você queria era comprar um presente para a sua mãe. Um presente bacaninha, que ela iria gostar. Mas você estava meio sem tempo de ir a uma loja e decidiu comprar pela Internet. Internet é fácil. É rápido. Meu deus, por que eu não fui na maldita loja comprar a merda do presente? Com esse tempo de espera eu já teria ido, passado num supermercado e cortado o cabelo. Mas não. Fui preguiçosa e aqui estou, penando. Eu mereço. Se eu ganhar uma úlcera terá sido minha culpa. Que merda! Eu não podia ser uma pessoa menos sedentária? Não podia...
GRAVAÇÃO: Aguarde alguns instantes, sua ligação estará sendo atendida. Para sua segurança, esta ligação está sendo gravada.

Para sua segurança?

VOCÊ grita para a gravação: PARA A MINHA SEGURANÇA?????

E pode praticamente ouvi-la rir da sua cara.
Mas lá vem o tal supervisor e você tenta se acalmar um pouco.

SUPERVISORA (que novamente tem exatamente a mesma voz da atendente 1, mas vc não pode jurar...): Boa noite (sim agora já é noite), superiora Waldisleide falando. Em que posso ajudá-la?

VOCÊ: Boa noite. Eu comprei um produto de vocês, ele não chegou. Já tem 15 dias. Gostaria de saber o que aconteceu e quando vou receber meu produto.

SUPERVISORA: Pois não. Qual o código do produto?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Você ainda não está lá, Bárbara

Ela não cansa de me dizer: eu ainda não estou lá.
Mas a verdade é que já não estou mais aqui.


Era segundo semestre de 2005 quando eu e minha, na época, nova namorada, descobrimos que ambas sonhavam em morar fora do país. Imediatamente começamos a falar sobre lugares em que gostaríamos de viver e coisas que nos interessavam... E, no meio de uma paixão enlouquecida pelo cinema de Wong Kar-Wai, começamos a namorar a idéia de ir para Hong Kong, estudar cinema lá, onde o diretor dá aulas.

Ficamos encantadas com a idéia de mudar totalmente de vida: estudar em um país tão diferente do nosso, com pessoas com a cabeça certamente tão diferente da nossa. Sonhamos muito, lemos muito a respeito da cidade, dos costumes, da universidade e até da vida gay e da comunidade brasileira por lá. Mas então a realidade bateu na nossa cara: não tínhamos o dinheiro pra ir, nem pra nos manter lá, muito menos pra pagar uma universidade.

Longe de nos desanimar, resolvemos ver outras possibilidades. Acho que o que faltava a nós duas era a companhia de outra pessoa que embarcasse na mesma onda. Fomos a uma feira de empregos no exterior e lá encontramos um balcão de ofertas de emprego no Canadá. Eram empregos que, na verdade, você meio que pagava pra ter... era como um intercâmbio, que você pagava pra fazer, trabalhava uns meses numa estação de esqui como garçonete ou arrumadeira, e depois voltava pra casa mais ou menos com o mesmo dinheiro que empenhou.

Certamente não era o que queríamos. E isso ficou bem óbvio para o homem que estava nos explicando o processo. Então ele disse: por que vocês não emigram para o Canadá? Há um processo legal, com o visto nas mãos vocês podem morar, trabalhar, estudar e ter praticamente os mesmo direitos de um canadense.

Saímos de lá muito espantadas com essa informação e fomos logo na internet, tentar entender o processo. Pra nós não foi muito simples, pois não tínhamos a menor idéia de como aquilo funcionava. E passamos um bom ano pesquisando, pensando sobre o assunto, conversando com outras pessoas que estavam fazendo o processo. Em maio de 2006 finalmente entramos com o nosso processo de imigrantes trabalhadoras. Na verdade ela entrou e eu fui na baila, dependente dela (o canada aceita casais do mesmo sexo).


Vancouver, onde chegaremos em breve

Foram dois anos de processo, com muita espera, angústia, papelada pra juntar, testes de inglês, testes médicos, levantamento criminal... Mas em maio de 2008, finalmente, saiu o nosso visto.

Uma coisa interessante aconteceu durante esse tempo. Quando aplicamos, dois anos antes, eu era uma produtora de tevê etc. um tanto frustrada por não ter encontrado um nicho bom de trabalho, por não ter entrado, efetivamente, no mercado, e a Mari estava começando a trabalhar como assistente de edição. Ambas ganhávamos uma miséria tão miséria que chega a ser constrangedor lembrar. Dois anos depois, quando saiu o visto, ela estava bombando na Conspiração Filmes e eu havia mudado de profissão, virado editora também, trabalhando e ganhando bem pra quem acabou de se lançar em um novo mercado. Estávamos bem felizes profissionalmente e financeiramente.

Pensamos bem, respiramos fundo e resolvemos adiar nossos planos canadenses até finalizarmos nossos trabalhos no Brasil. O adiamento, inicialmente, seria de alguns meses, depois passou para um semestre e, finalmente, pra quase um ano. E, durante todo esse tempo, trabalhamos como se não tivéssemos vida. E eu procurei fingir que o Canadá não existia. Que eu estaria para sempre no Rio.

Mas o final de 2009 se aproximava e nós corríamos o risco de perder o visto. Então, finalmente, compramos a passagem. E reservamos hotel. E demos preços às nossas coisas.

Desde então, alguma coisa aconteceu comigo.
Perdi, totalmente, o interesse pelo Rio de Janeiro. Meus passeios de bicicleta, minhas praias, botecos, escaladas... Nada mais me interessa. Mesmo trabalhar anda exaustivo. E olha que andei profundamente viciada em trabalho. Só me interesso por ir embora. Por me despedir e sair. E o resto todo ganhou um tom cinzento chato.

O calor me oprime, o sol carioca me prende dentro de casa, as pessoas na rua me transtornam e me parece difícil demais encarar o dia a dia da cidade. Estou reclusa dentro da minha expectativa. É como se eu já estivesse lá. Mas ainda sim é como se ir embora não passasse de uma fantasia que, a qualquer momento, vai se desfazer.

É estranho finalmente estar tão perto de realizar um sonho e um projeto que já tem quase quatro anos. Ou melhor, quase quatro anos de projeto conjunto com a namoradaa, porque eu, sozinha, já fantasiei tanto conhecer a vida fora daqui, mas nunca me pareceu uma possibilidade real.

Esse post não tem conclusão. Acaba, simplesmente.
A expectativa de ir e viver o que quer que haja para ser vivido está mais forte do que eu.
E o medo vem junto. Prazer, sem medo, não é tão legal, eu acho.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Festividades insuportáveis


Fins de ano, carnavais e momentos de êxtase coletivo me deixam profundamente irritada e temerosa. É mais ou menos a mesma sensação que me dá quando uma turba de adolescentes entra no ônibus. Rindo, gritando, xingando, tirando onda.
Minha vontade é de sair correndo. Não, na verdade a minha vontade é de esganá-los. Mas não posso. Então fico irritada esperando que o tempo passe e torcendo para que eles se mantenham a uma distância segura.

Nessas festas apoteóticas de fim de ano tenho a mesmíssima sensação. Me sinto em plena Babilônia, com todos os outros seres humanos fazendo de tudo para se divertir escandalosamente. Há uma obrigação no ar: há de ser feliz. Esse tem de ser o reveillon mais incrível da história de toda a minha vida. Há de ser marcante. Há de me levar à loucura. E lá vão os seres humanos mostrar-se hiper-felizes bebendo todas, gritando, pulando, beijando, batendo, vivendo e morrendo, como se não houvesse o amanhã.

Mas amanhã há. Pelo menos para os felizardos que sobrevivem à experiência. Eu fico acuada, em um canto, tentando fingir que nada de anormal acontece. Pelo menos o reveilon dura apenas um dia. Mas sempre é seguido do carnaval que, no Rio de Janeiro, começa um mês antes, pelo menos.

Lá estou eu, voltando do trabalho, cansada, dez horas da noite, num ônibus que demorou quase uma hora para passar e, de repente, já quase em casa, eu me deparo com uma banda de carnaval fechando a pista. Eles bebem, eles gritam, eles querem que eu, sentada toda bonitinha dentro do ônibus, entre na farra. Eu não quero. Me chamam. Batem na janela. Eu digo que não e depois começo a mudar de lugar. Eles balançam o ônibus. Uns tentam entrar pelas janelas. Eu e a trocadora fechamos todas e o motorista começa a ameaçar avançar naquela gente... ah! cenas memoráveis dos carnavais...

Morar em Laranjeiras, onde devem passar, esse ano, uns 10 a 15 blocos, não ajuda em nada.
E esse ano nem dinheiro há para fugir: estarei dura, guardando cada trocado para minha grande mudança para o Canadá.

Pelo menos pude fugir este reveillon para um lugar seguro, frio, alto, sem luz e sem quase nenhuma gente. Lugar difícil de chegar e que, por isso mesmo, é um dos melhores lugares no mundo.


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Lua Cheia

Pra quem pôde olhar pra cima nas primeiras noites do ano, viu a assombrosa lua cheia que iluminou o céu. Lá do meu querido retiro, onde não há luz elétrica, a lua funcionava como um gigantesco holofote.

Sábado à noite, alguns seres humanos de idades variadas, resolveram ir tomar uma cachaça no abrigo onde eu estava hospedada. Fomos todos para fora, ver a lua nascer atrás de um morro. Estamos quase que em um cinema comentou alguém. Só que sem propagandas antes do filme. Ríamos e ficamos esperando. De repente, a cena impressionante, o morro pegava fogo com a luz avermelhada da Lua. Umas 15 cabecas assistiam em silêncio. Foi muito rápido. De repente, poft, a lua amarela que só ela surgiu enorme no céu. Foi muito rápido. Alguém tinha um relógio e comentou: nasceu em 3 minutos. Nossa! como foi rápido. Mas rápido do que... Do que fazer um miojo! brincou uma menininha. Rimos. Ali estava o merchandising que faltava.

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Passamos bastante tempo ali, as tais 15 pessoas, olhando a Lua, procurando estralas cadentes e apostando em corridas entre estrlas. Não, não era bem um momento hippie, era só que o espetáculo era realmente impressionante para ser ignorado. Não havia outro assunto possível a não ser a lua. E eu estava felicíssima com isso.

De repente, um espírito de porco cata o celular, se afasta um pouco e liga para um amigo. Fiquei indignada com aquilo, uma invasão total. Foi mesmo como se alguém atendesse o celular no cinema. Absurdo.

Então o cara inicia a conversa com o amigo: OI fulano, tudo bem? Onde você está? Você tá vendo a Lua? como é que está aí? Cara, aqui ela está assim e assado....
E ficou uns bons minutos conversando sobre a lua antes de desligar.

sábado, 31 de outubro de 2009

SOPA DE GOULASH DA BARBS

Eu nunca dei receitas pela internet, mas ontem resolvi cozinhar uma sopa de Goulash que ficou tão gostosa que achei que merecia a publicação. Infelizmente não tirei fotos.

Minha sopa não é bem a tradicional. Fiz uma complilação das receitas que peguei na internet e mudei ao meu jeito. Gosto de derreter as batatas e deixar o caldo bem grosso e bem vermelho. Foi a segunda vez que fiz essa sopa e acho que desta vez ficou no ponto certo.

INGREDIENTES:
- 1/2 kg de carne (eu uso alcatra)
- 2 batatas grandes
- 1 cenoura
- 1 cebola grande
- 3 dentes de alho
- 3 colheres de chá de páprica doce
- 3 colheres de sopa de extrato de tomate
- 1 colher de sopa de manteiga
- azeite extra virgem
- 2 tabletes de caldo de carne
- pimenta do reino e sal

PREPARO

Descasque a batata e a cenoura, corte em rodelas finas e coloque pra cozinhar em dois litros d`água. Faça isso antes de mais nada. A idéia é que a batata fique extremamente mole.

Pique a cebola, a carne em cubinhos de mais ou menos 1 cm e o alho. Refogue a cebola no azeite. Acrescente a carne e a manteiga. Deixe cozinhar um pouco. Coloque o alho, sal, pimenta e páprica. Misture bem. Acrescente o extrato de tomate e cozinhe por uns 3 minutos. Acrescente entao a agua dos legumes e complete com mais água se for necessário. No final deve ser colocado mais ou menos 1,5 L de água. Misture os legumes. Deixe cozinhar por mais quarenta minutos em fogo baixo ou até a carne ficar BEM macia. Se precisar, acrescente mais água ou regue com vinho tinto seco.

Sirva com um fio de creme de leite por cima e um pãozinho bacaninha.

Rende 4 proções.
Mas aviso: vai ser pouco. 

:-P

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Monstros tristonhos

Tatiana de Oliveira teve sua matrícula cancelada na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) menos de um mês após o início do curso de Pedagogia, no qual ingressou pelo sistema de cota racial. A instituição inscreve candidatos cotistas com base na autodeclaração de cor/raça negra, mas depois, com base numa entrevista, pode rejeitar a matrícula. O pai da estudante se define como "pardo" e o avô paterno, como "preto", mas uma comissão da UFSM que funciona como tribunal racial pespegou-lhe o rótulo de "branca".

Juan Felipe Gomez, cotista ingressante na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), conheceu sorte similar. A instituição impugnou sua declaração racial, recusando uma declaração cartorial na qual a mãe do jovem se identificou como "parda" e "afrodescendente", uma certidão de nascimento que identifica a avó materna de Juan como "negra" e um prontuário civil em que a mãe é classificada como "parda". Ele não está só: na UFSCAR, um quarto dos candidatos aprovados pelo sistema de cotas raciais neste ano teve sua matrícula cancelada em razão de impugnações do tribunal racial.

Segundo a lenda divulgada pelos arautos da doutrina racialista, a "raça negra" é constituída pela soma dos que se declaram censitariamente "pretos" com os que se declaram "pardos". Em tese, o sistema de cotas raciais está destinado a esses dois grupos. Então, por que os tribunais raciais instalados nas universidades impugnam mestiços como Tatiana, Juan e tantos outros?

A resposta encontra-se na introdução de um livro de Eneida dos Reis devotado a investigar o lugar social do mulato. O autor da introdução é o antropólogo Kabengele Munanga, professor titular na USP e um dos ícones do projeto de racialização oficial do Brasil. Eis o que ele escreveu: "Os chamados mulatos têm seu patrimônio genético formado pela combinação dos cromossomos de 'branco' e de 'negro', o que faz deles seres naturalmente ambivalentes, ou seja, a simbiose (...) do 'branco' e do 'negro'. (...) os mestiços são parcialmente negros, mas não o são totalmente por causa do sangue ou das gotas de sangue do branco que carregam. Os mestiços são também brancos, mas o são apenas parcialmente por causa do sangue do negro que carregam."

O charlatanismo acadêmico está à solta. Cromossomos raciais? Sangue do branco? Sangue do negro? Seres naturalmente ambivalentes? Munanga quer dizer seres monstruosos? Do ponto mais alto da carreira universitária, o antropólogo professa a crença do "racismo científico", velha de mais de um século, na existência biológica de raças humanas, vestindo-a curiosamente numa linguagem decalcada da ciência genética. Mas ele vai adiante, saltando dos domínios da biologia para os da engenharia social: "Se no plano biológico, a ambiguidade dos mulatos é uma fatalidade da qual não podem escapar, no plano social e político-ideológico eles não podem permanecer (...) 'branco' e 'negro'; não podem se colocar numa posição de indiferença ou de neutralidade quanto a conflitos latentes ou reais que existem entre os dois grupos, aos quais pertencem, biológica e/ou etnicamente."

É o horror - científico, acadêmico e moral. Mas, desgraçadamente, nessas frases abomináveis, que representam um cancelamento do conceito de cidadania, está delineada uma visão de mundo e exposto um plano de ação. De acordo com elas, a mola propulsora da história é o conflito racial e, no Brasil, para que a história avance é preciso suprimir a mestiçagem, propiciando um embate direto entre as duas raças polares em conflito. O imperativo da supressão da mestiçagem exige que os mestiços - esses monstros tristonhos condenados pela sua natureza à ambivalência - façam uma escolha política, decidindo se querem ser "brancos" ou "negros" no novo mundo organizado pelo mito da raça.

No veredicto do Grande Inquisidor que ocupa o cargo de reitor da UFSM, Tatiana foi declarada "branca" porque, em audiência diante de um tribunal racial, ela não testemunhou ser vítima de discriminação racial. A estudante, tanto quanto Juan Felipe e os demais rejeitados pelo Brasil afora, teve cassado o direito à autodeclaração de cor/raça por um punhado de inquisidores, que são professores racialistas e militantes de ONGs do movimento negro. Mas, antes disso, essa turma tomou de assalto as chaves de acesso ao ensino superior e, desafiando as normas constitucionais, cassou o direito de centenas de milhares de jovens da cor "errada" de ingressar na universidade pelo mérito demonstrado em exames objetivos. A massa dos sem-direito é formada por estudantes de alta, média ou baixa renda, com diferentes tons de pele, que compartilham o azar de não funcionarem como símbolos úteis a uma ideologia.

Esquece-se com frequência que a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação. A Lei Antimiscigenação da Virginia, de 1924, que sintetizava o sentido geral da legislação segregacionista nos EUA, definiu como "negros" todos os que tinham uma gota de "sangue negro". A Lei para a Proteção do Sangue Germânico, de 1935, na Alemanha nazista, criminalizava casamentos e relações sexuais entre judeus e arianos. A Lei de Proibição de Casamentos Mistos, de 1949, na África do Sul do apartheid, proibiu uniões e relações sexuais entre brancos e não-brancos. Raça é um empreendimento de higiene social: a busca da pureza.

Mestiçagem se faz na cama e na cultura. É troca entre corpos e intercâmbio de ideias. Os arautos brasileiros do mito da raça talvez gostassem de ter uma lei antimiscigenação, mas concentram-se na missão mais realista de higienizar as mentes, expurgando de nossa consciência a imagem de uma nação misturada. Cada um dos jovens mestiços pré-universitários terá de optar entre as alternativas inapeláveis de ser "branco" ou ser "negro". Para isso, e nada mais, servem as cotas raciais.

DEMÉTRIO MAGNOLI
(sociólogo e doutor em geografia pela USP)
email: demetrio.magnoli@terra.com.br
Retirado do Globo - Opinião - Quinta feira, 14 de maio de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

Preconceitos

Tenho pensado muito sobre preconceito. Há aquela frase que vira e mexe aparece por aí: "Onde mora o seu preconceito?" e que, por mais batida que seja, sempre mexe comigo.

Onde mora o meu preconceito? Em tantos lugares quantos pode haver. Sou uma pessoa preconceituosa sim, mas não diferentemente de todas as outras pessoas. Não é muito difícil observar o preconceito em cada esquina, em uma conversa, ou mesmo em um carinho em um cuidado, em uma oferta. Os preconceitos estão por aí, expostos para quem quiser vê-los. São tão comuns, fazem parte do nosso dia a dia tão corriqueiramente, que nós apenas não mais os notamos. Ou, pelo menos, fazemos grande esforço para não os notarmos. E para não nos expormos, também.

Por algum motivo, sempre que eu puxo o assunto "preconceito" as pessoas pensam imediatamente em racismo. Talvez porque esse seja o preconceito mais comumente observável. Mas me refiro a todo tipo de preconceito. Cor, religião, sexualidade, nacionalidade, naturalidade, estilo de vida, de vestir, lugares, atitudes, gírias, tatuagens, cortes de cabelo, amizades, visão poleitica, opniões diversas, gosto litereario. Meu Deus, é incrível a gama de coisas que pode gerar preconceitos.

Sentindo na minha própria pele, o preconceito que, a princípio, mais me deveria atingir é sobre minha sexualidade. Sou bissexual, o que significa, para quem não sabe, que sou discriminada tanto por heterossexuais como por homossexuais que não acreditam que bissexualidade seja uma coisa possível. Juro. Os homossexuais acham que bissexuais são pessoas mal resolvidas só por que são diferentes deles. Acusam os bissexuais de quererem "exercer" sua homossexualidade sem querer assumir o "estigma". Para muitos a bissexualidade é tão impossível quanto o monstro do armário. Ou talvez seja mesmo o próprio monstro. A verdade é que ninguém gosta muito do que é diferente. Travestis discriminam homossexuais masculinos e vice versa. Lésbicas discriminam todo mundo. E eu me acho uma estranha nesse meio todo. Tanto dos homossexuais quanto dos heterossexuais.

Como é ruim andar pela rua e ouvir buzinadas de carros. Ou piadinhas gritadas de uma obra. Ou discutir com motoristas de ônibus apenas porque estou com minha namorada, passeando.

Mas, para falar a verdade, esse não é o preconceito que mais me incomoda.

Na verdade o que mais me incomoda é ver como é fácil a gente enquadrar os outros por um pequeno pedaço de informação.

Meu irmão, por exemplo.
Ele é economista, formado pela UFRJ, com mestrado na USP e atualmente em NY, fazendo doutorado.
Não, ele não é rico. é, na verdade, um cara que sempre teve pouca grana. Mas não é sobre dinheiro que eu queria falar.
Meu irmão tem uma visão politica muito própria. Ele se recusa a ser de esquerda ou de direita. Ele procura ver prós e contras em qualquer situação (o que as vezes é realmente irritante).
Então ele pode amar o Lula e falar muito mal dele ao mesmo tempo. Pode odiar a politica externa americana e apoiar alguma parte dela. E quado ele entra em uma discução, ele entra para valer. Com dados, com teorias, com noticias e História.
Ele é um leitor inveterado e, ainda criança colecionava livros sobre a História das civilizações.
Nossos amigos têm certeza absoluta de que ele é um cara de extrema direita, apenas por ele não se submeter a ter a mesma opnião de todo mundo.
Isso o machuca extremamente.

MInha mãe sofreu muito preconceito qundo se converteu. Ela não tinha religião e me criou uma criança atéia, nunca frequentei igreja nenhuma nem tive qualquer relação com espiritualidade. Quando eu já era adolescente, ela comecou a procurar uma religião e, nesse processo, se evangelizou pela Igreja Presbiteriana. Ou seja, minha mãe é evangélica e diz isso em alto e bom som, apesar de, por conta disso, ter perdido o carinho e o respeito de muita gente. Ela deixou de pertencer ao grupo das "pessoas legais" porque entrou para o grupo das "pessoas sem cérebro e sem graça".

Um dos preconceitos que mais me atinge é sobre o meu temperamento. Tenho mania de ser recolhida, na minha, e de me afastar quando vejo que uma situação vai se tornar problemática desnecessariamente. Faço isso porque tenho um temperamento explosivo e, no passado, brigava muito com as pessoas. Com o passar dos anos, achei que era me lhor me recolher e esperar a turbulência passar antes de conversar sobre uma situação delicada. Mas sempre espero conversar e ter tudo preto no branco, tudo entendido, tudo explicado. Mesmo que daí não venha um entendimento, venha uma ruptura. Mas sou assim, gosto de tudo as claras. De uns anos pra cá notei que, muitas vezes, meus amigos me consideram uma pessoa dificil e me excluem de certas coisas porque acham que eu posso dar pití, posso bater boca, posso colocar alguém em alguma situação ruim. Muitas vezes é como se eles não me conhecessem.

Mas não, não é sobre esse preconceito que quero falar, porque ele é muito pessoal.

Um outro preconceito que me atinge é a respeito das minhas leituras.
Leio muito, compulsivamente.
E leio coisas muito variadas.
Gosto muito de romances, de poesia, de História, de Astronomia, livros de arte e de coisas ligadas a minha area, cinema.
Mas o meu fraco mesmo é por ficção científica.
Meu Deus, como gosto de ficcão! E como me apaixono pelas histórias!
Quando acabei de ler Farenheint 451 chorei por dois dias. Fui ao trabalho vermelha e inchada de tanto chorar. Passava horas olhando para frente, pensativa.
Quando me perguntavam o que eu tinha eu dizia: foi um livro. (O que já deve parecer completamente estranho). Quando me merguntavam qual, e eu respondia, quase podia ver as gargalhadas se formando na cara das pessoas.
Meu Deus! um livro de ficcao científica! Como alguém pode ficar assim por causa disso?

Não há respeito por esse tipo de literatura, principalmente por parte de pessoas "intelectualizadas". Elas não ficariam assim por tão pouco. Não, claro que não. E ali me julgam estranha, esquisita, boba. Nem sei, Mas me julgam e é obvio.
Esse tipo de coisa (que é bem corrente em minha vida) me magoa. Assim como também o pouco respeito que as pessoas têm pela minha opnião própria.
Se eu digo que sou contra a pirataria somali, sou a favor de guantanamo. Se digo que quero explodir o congresso, sou uma agente secreta americana, se digo que quero ter filhos e morar numa casa com jardim, sou tradicionalista, se ando de bicicleta quando tenho carro, sou esquisita e se peço para meus amigos fumantes que joguem seus cigarros em lugares apropriados sou polîcial anti-tabagista. Se sou contra cotas raciais, sou racista. Qaundo era estudante, tinha que ser do PSTU, mas se sou contra o PSTU, só posso ser pró-PSDB e se também não sou nada disso... não podia participar de grupos estudantis, porque nunca me encaixei.

Hoje li no jornal uma notícia que me deixou feliz e triste ao memso tempo.
Uma travesti, chamada Luma, professora de educação no Ceará, está fazendo doutorado e lutando para conquistar seu espaço na sociedade, principalmente na sociedade acadêmica que é ainda mais fechada do que boa parte do resto do mundo.
Luma conta que sofreu preconceito desde criança por gostar de coisas de menina e que, depois de passar em concurso público em primeiro lugar para alguma niversidade, foi barrrada pelo reitor que nao aceituou sua sexualidade. Lutou e conseguiu assumir o posto.
Puxa vida. Ponto para ela. Que reportagem para cima, né? Que bom que ela conseguiu sair do estigma de ser travesti de vida fácil. Ou mais uma cabelereira ou maquiadora. Legal.
Mas lá no fim da reportagem estava escrito: "Foi a primaeira colocada em um concurso em Aracati, mas o diretor se negou a empossá-la. Foi preciso intervenção da Corregedoria (...). E recebeu propostas para fazer programas sexuais em em Fortaleza. Recusou: - Tento mostrar as pessoas que existe outra forma de vencer."
Como assim, terminar a reportagem falando das propostas sexuais que recebeu?! Se vamos falar de vencedores do preconceito, não vamos mostrea-los como surgidos da lama que, a muito custo, não voltam para a lama. Vamos mostrar como pessoas comuns que brigam suas brigas e que mostram que "na sua diferença, você pode ser igual", como disse a própria Luma no meio da reportagem.

Pequenos e grandes preconceitos. Alguns são tão pequenos que a gente mal nota que eles estão lá.
São os preconceitos nossos de cada dia.

Somos todos tão diferentes e queremos ser diferentes.
Cada pessoa buscando sua individualidade.
Seria muito bom se pudéssemos ver as pessoas pelo que são.
As vezes me pergunto se o preconceito é parte daquilo que nos torna humanos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Israel, as origens e o presente - um protesto

Protesto que está rolando na internet.
A idéia é comparar o nazismo ao sionismo, uma vez que o recebte "conflito" na Faixa de Gaza deixou o mundo mais alerta para os reverses da História humana.

(Ps: As imagens abaixo me chegaram por email. Não sou autora nem tenho nenhum direito sobre elas.)